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Opinião | "A prenda" de Cecilia Ahern






 


 


 

A nossa percepção do tempo é algo curiosa... Ele nunca "anda" ao ritmo que desejamos. Para o Lou o tempo passava muito depressa não lhe permitindo responder às mil e uma solicitações profissionais que todos os dias lhe apareciam... A vida profissional ocupava grande parte da sua vida, afastando-o da família, da esposa e dos filhos...

 

E foi assim que a autora introduziu os leitores na vida de Lou... Contudo, Gabe aparece e tudo na vida e Lou muda... Lou começa a ver mais longe. Vê para além das malhas ofuscantes de um trabalho desgastante... Vê para além daquilo que é óbvio.... Vê para além do seu coração e descobre que há vida para além do trabalho e aí toma consciência daquilo que se tem perdido, daquilo que verdadeiramente preenche os dias desgastantes, dá cor às tristezas tornando-as mais suportáveis... No fundo, o cinzento da sua vida dá lugar à cor e aos sentimentos...

 

A mensagem que está por detrás deste livro é fantástica e, a meu ver, é o grande ponto positivo desta narrativa. Quantas vezes andamos tão absorvidos nos nossos problemas, nas questões profissionais e nos esquecemos de dar lugar na nossa vida àqueles que preenchem o nosso coração, que tornam os dias maus mais fáceis de suportar e tornam os dias de alegria escandalosamente felizes.... Quantas vezes dizemos "para o ano há mais",  "encontramo-nos para a próxima". Mas será que irá haver próxima? Eu sei que não devemos viver com medo. Aliás, não podemos deixar que ele absorva as nossas energias ao ponto de não nos permitir viver as coisas com intensamente. Devemos sim, é isso que o livro demonstra, aproveitar todos os momentos possíveis para partilhar e desfrutar da companhia das pessoas especais que fazem parte da nossa vida.... Devemos viver as coisas intensamente, tão intensamente como se amanhã fosse simultâneamente o primeiro e o último dia da nossa vida. Lou, talvez aprendeu um pouco tarde demais a ver o essencial, talvez pelo essencial ser invisível aos nossos olhos, mesmo assim, quando finalmente se apercebeu, tentou remediar a sua atitude permitindo preencher o coração de alegria daqueles que mais gostavam dele. As páginas finais são emocionalmente intensas e capazes de levar às lágrimas.

 

Gabe assume nesta estória uma posição de destaque... É uma personagem que deixa dúvidas quanto à sua identidade. Na minha opinião, acho que tem identidade divina. Uma espécie de anjo que chega à vida de Lou e o faz emergir da vida profissionalmente agitada, que lhe mostra o que é essencial! Confesso que não foi uma parte do livro que mais me agradou!! Concordo que dá um toque especial ao livro e sem ele, os acontecimentos e a forma como eles se vão desencadeando deixam de ter algum significado.  Talvez seja esta minha dificuldade em lidar com o divino que me leva a encarar as coisas de forma diferente.

 

Um outro aspecto que gostei foi a forma como livro está organizado. Acho que a forma que a autora utilizou para contar a estória torna a mensagem mais marcante. É um livro que nos faz pensar, que nos faz vasculhar os recantos dos nossos sentimentos e os caminhos que a nossa vida tem levado ao longo dos anos... Faz-nos pensar nas coisas boas que fizemos, nas coisas más que fizemos, naquilo que queremos fazer e na forma como queremos fazer... A vida é cheia de surpresas e de pessoas que, tal como a autora refere, são como presentes que precisam de ser desembrulhadas pela pessoa certa...

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