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Opinião | "Escrava" de Mende Nazer e Damien Lewis

 




Autor: Mende Nazer e Damien Lewis
Ano: 2005
Editora: Dom Quixote
Número de Páginas: 350 páginas
Classificação: 3 Estrelas

Sinopse


As memórias de Mende Nazer, uma nubiana feita escrava.

A história desta corajosa e decidida mulher não é contudo uma história passada e remota. Tudo aconteceu em 1994 quando um grupo de mujahiddin atacou a sua aldeia. Os adultos foram mortos, as crianças levadas como escravas. 

Durante sete anos ela serviu numa casa tendo depois sido passada a familiares que viviam em Londres. Na capital europeia conheceu outros sudaneses e com a ajuda do jornalista Damien Lewis conseguiu fugir. Este é o seu relato de denúncia. O seu grito por justiça e liberdade.

 

Opinião


Esta foi uma das histórias verídicas lidas até ao momento que mais me impressionou. Sofri com a Mende ao longo das páginas que iam trazendo cada uma das cenas de violência a que estava sujeita. É indescritível e inimaginável aquilo que se vai sentido ao longo da leitura. Como é que é possível fecharem os olhos à Escravatura? Como é que é possível que os próprios governantes a consintam?  Estas foram questões que surgiram ao longo da leitura, principalmente no momento em que, no livro, é a presentada a posição de diferentes figuras do governo do Sudão perante a escravatura.

 

Mende foi corajosa e a pressão psicológica a que foi sujeita não é passível de ser descrita em palavras. Foi demasiado intensa para que possa ser descrita por uma simples palavras. Violência física (do mais brutal que possam imaginar) aliada à constante violência psicológica tornaram negras a adolescência e o início da idade idade adulta desta rapariga. Tornaram a felicidade da infância na bóia de salvação, uma vez que Mende evocava mentalmente as coisas felizes que viveu na infância e o amor incondicional da sua família para superar a infelicidade que cada dia como escrava lhe trazia.

 

Fiquei muito emocionada com a sua conquista pela liberdade e com as suas pequenas vitórias. Foi um processo de adaptação difícil conjugado com problemas de ordem política que tornaram a luta de Mende uma luta de todos.

 

Este livro faz-nos pensar um pouco na nossa própria liberdade. Damos tudo como adquirido que não somos capazes de imaginar o que seria de nós se fossemos "propriedade" de alguém, se, por qualquer motivo, fossemos impedidos de fazer aquilo que quiséssemos. É certo que vivemos uma liberdade condicionada pelas regras do nosso próprio país, mas mesmo assim sentimos-nos livres. Sentimos que podemos fazer tudo aquilo que nos apetece. 

 

Desde que este livro foi escrito já se passaram dez anos. Espero que a Mende tenha realizado alguns dos seus sonhos e que tenha conseguido conquistar o seu lugar no Mundo. Espero que ela ame cada minuto da sua vida, independentemente do sítio onde viva. E que continue a sonhar.

 

Boas leituras e deixem-se invadir pelas palavras. 

 

Comentários

  1. Olá,

    Este livro parece-me muito idêntico a uns livros que fiz coleção publicados pelo Circulo de Leitores e que se chamava algo como mulheres do mundo e que quando a mim valem bem a pena ser lidos, embora tenha vários ainda por ler, pois mostra-nos universos totalmente diferentes daqueles que estamos habituados a ver.

    Ainda há muita mulher a ser mal tratada no mundo e estes livros são uma boa forma de alertar o que se passa, eu recordo-me por exemplo de Queimada Vida (o titulo é mais do que real) ou mesmo Lagrimas na Areia (mutilação genital) que são de uma crueldade e violência que só mesmo lido.

    Bjs e boas leituras :)

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  2. Se há Fiacha. Aqui pelo nosso país também existe, mas a outros níveis. Situações que por muito que façamos não as conseguimos eliminar.

    Não li nenhum dos livros que referes. Mas tenho uma certa curiosidade em relação ao "Queimada Viva".

    Este também aborda a questão da mutilação genital... Fiquei chocada com o capítulo em que é descrita.

    Bjs

    ResponderEliminar
  3. Infelizmente no nosso pais há ainda muita coisa má, em especial baterem nas mulheres e com a crise que está é normal que aumente, mas felizmente começa a haver mais coragem para denunciar estes casos e graças muitas vezes a livros como este.

    Tens muita coisa boa, li este ano um livro desses que tem a ver com as mulheres na China, meu deus situações má demais, para teres uma ideia a narradora do livro é uma mulher que tem um programa de rádio e que acaba pir funcionar como confidente de casos de muitas mulheres...gostei....mas tens muito outros casos, ainda hoje nas noticias passou um caso sobre a luta de uma mulher do Iraque (se não estou em erro e até tenho o livro para ler, relatos de como são tratadas na cadeia), tenho ainda outro que se passa na Nigéria onde as mulheres são apedrejadas, uma professora em Katmandou, etc, etc....exemplos de vida e coragem :)

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  4. Sim, felizmente em Portugal as pessoas já começam a acordar um bocadinho para o problema. Mas digo-te são dos piores casos para se acompanhar em serviços de psicologia. Em termos de evolução terapêutica é um passo para a frente numa semana e na seguinte já se andou 3 ou 4 ara trás. E sim, graças a livros como este ou apenas livros em que uma personagem vivência uma situação semelhante à que vivem desperta nelas e neles uma sede imensa de mudar de vida.

    Sim, existem bastantes livros do género. Verdadeiros relatos de coragem. A minha próxima leitura será mais um livro deste género.

    Bjs e boas leituras.

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