Avançar para o conteúdo principal

Opinião | "Os filhos do afecto" de Torey Hayden

Os Filhos do Afecto
Classificação: 5 estrelas

Torey Hayden é daquelas autoras a quem gosto sempre de voltar. Os livros dela são, para mim, uma verdadeira inspiração. Admiro o trabalho dela e a forma como ela lida com todas as situações. Gostaria muito de falar com ela, trocar ideias e experiências... 
Cada livro que ela nos traz é um pequeno pedaço de um mundo "anormal" que tenta viver na "normalidade" de um mundo mais alargado. Porém, eu questiono sempre: O que é ser normal?
Eu tenho a minha própria definição e interpretação de normalidade e, por aquilo que vou lendo nas entrelinhas dos livros da Torey, penso que vou de encontro àquilo que ele pensa.

Em cada livro é-nos apresentada uma história ou um conjuntos de histórias. Tudo depende do número de crianças que fazem parte do livro. 
Os filhos do afecto é um livro onde Torey nos oferece a história de três crianças: Lori, Tomaso, Cláudia e Boo, Eles constituem uma turma pouco oficial da autora. Cada um tem as suas especificidades e cada um será protagonista de conquistas, lágrimas, tristeza e aceitação. 
Ainda não consegui encontrar uma explicação, mas este foi um dos livros da autora que mais me emocionou e tocou. E é estranho porque já li livros dela com histórias bem mais fortes e desesperantes do que estas. 

Achei todas as crianças especiais e não consigo destacar uma que me tenha feito vibrar mais do que as outras. No fundo, todas elas significaram alguma coisa para mim. 
Da Lori, admiro a persistência e vontade de fazer diferente. Apesar de toda a força que ela emana e daquele jeito único de lidar com os outros, também ela tem o seu lado frágil. Foi neste lado mais negro que olhei para ele e senti o quão difícil é esforçarmo-nos e, mesmo assim, não atingir aquilo que queríamos. É certo que a Lori tem uma agravante física, provocada por alguém que não sabe o que é amar uma criança. 

Tomaso, o rapaz irreverente, refugia-se em memórias e esperanças falsas para se ir mantendo à tona. Amor dói, e ele sabe isso tão bem que prefere que as pessoas não gostem dele. Contudo, ao mesmo tempo deixa-se afundar nos braços de Torey, deixa-se amar por ela e por todos os outros meninos e dá também o seu amor, É um rapaz interessante que, com a ajuda psicológica certa, tem um caminho brilhante pela frente.

Cláudia é, tal com a Torey, a criança que mais me preocupou ao longo da história. Vive no silêncio e no num mundo muito dela. Tem dificuldade em expressar aquilo que sente e necessidade de receber amor e afeto por parte dos outros. Esta necessidade não me pareceu bem explícita. Porém, ela vem de uma família fria e rigorosa e ao primeiro sinal de amor ela segue e faz o que lhe pendem, porque entende que só assim a outra pessoa não deixa de gostar dela.

Por fim, temos um Boo, um menino autista que vive num mundo muito dele. É complicado conseguir tocar naquele espaço onde vive. Mas as ferramentas de Torey e o seu tacto para lidar com as crianças e usar o amor no trabalho conseguem algumas leves conquistas. Para ele, nós somos o mundo anormal e é difícil ele encontrar um lugar no nosso mundo onde ele se consiga encaixar. Ele irá conseguir encontrar o seu lugar, mas dentro dele existirá um espaço que só a ele pertence e nós somos tão limitados que muito dificilmente lá chegaremos. 

Torey lida com tudo isto de uma forma brilhante. Ao longo do livros são-nos apresentados outros fatores que vão condicionando as decisões e o estado de espírito da autora. Essas pedras no caminho tornam-na numa pessoa mais forte na sua fragilidade. 

Vale a pena ler o livro. Para quem trabalha com crianças é um livro inspirador.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Desafio dos Pássaros #2.1 | Acho que a coisa não vai correr bem

Tema 2.1 Acho que a coisa não vai correr bem Mal vi o tema desta primeira edição pensei O que é que eu vou escrever sobre isto? (principalmente quando ando numa fase de pouca criatividade). Os dias iam passando e as ideias não surgiam. Fui engolida pelo rebuliço da semana (rebuliço esse que começou logo no início deste mês) e como tinha uma altura mais vaga na sexta de manhã achei que seria uma boa altura para me dedicar ao tema. Ontem à noite ainda não tinha ideia do que escrever. Começaram a vir outras tarefas e claro que ideia foi, acho que a coisa não vai correr bem ao deixar o tempo avançar sem escrever nada. E, tal como aquelas profecias que se auto cumprem, eis-me aqui em frente à branca e assustadora folha do word sem saber o que vos escrever. Como vos deve parecer bem óbvio a coisa não está a correr bem e a pressão de inventar algo em tempo record levou-me a estes devaneios mentais. Quantas vezes já vos aconteceu as coisas não correm bem depois de na vossa mente formularem o ...

Por detrás da tela | (500) Dias com Summer

Ficha Técnica Actores Principais: Joseph Gordon-Levitt (Tom), Zooey Deschanel (Summer) Género: Drama / Comédia Romântica Ano: 2009 Classificação 1/5 Estrelas Opinião Este filme traz-nos a história de amor, vivida em 500 dias, entre Tom e Summer. Eles conhecem-se no local de trabalho, uma vez que Summer é contratada como nova assistente do chefe de Tom. Assim, ao longo do filme somos presenteados com avanços e recuos no tempo que nos vão oferecendo uma visão deste romance que, para mim, está condenado desde o início.  Pessoalmente, não senti química nem empatia entre estes dois elementos. Pareciam dois estranhos obrigados a viver um casal romântico na tela do cinema. A personalidade das personagens também não me despertou qualquer tipo de entusiasmo. Tom ficou obcecado pela Summer, obsessão esta um pouco distante e irrealista. Summer é uma personagem estranha que parece não saber o que quer. Não consegui perceber a intenção deste filme, nem o que ele pretendia transmitir. Os constantes ...

Em três razões

O aniversário do blog aproxima-se (dia 22 de Setembro), por isso achei que seria a altura ideal para lançar uma nova rubrica. Já andava a pensar nela à algum tempo. Os objectivos que fui ponderando na elaboração e construção desta nova ideia foram os seguintes: Permitir a interacção mais próxima com outros blogs; Dar a conhecer novos autores e novos livros; Permitir que esse conhecimento acerca dos livros viesse de uma forma simplificada.  De forma a tornar esta rubrica mais interessante irei colocar uma página no blog para ir apontando os livros que vão sendo apresentados e que ainda não li. Quando se tornarem em número significativo poderei fazer uma pequena votação para ver que livro irei ler em primeiro lugar (poderá ocorrer uma votação por mês, tudo depende da adesão). Como sou nacionalista decidi que este mês a rubrica Em três razões  deveria ser dedicada a autores nacionais. Por isso gostaria que, clicando aqui, preenchessem o pequeno questionário e indicassem três razões para ...