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Opinião | "Para sempre não é muito tempo" de Carolina Pascoal

Para Sempre não é muito tempo
Classificação: 1 Estrela

Para mim, está será uma das opiniões mais difíceis de escrever porque me deparei com um livro de um nível bastante inferior ao que estou acostumada. Torna-se ainda mais difícil porque é o primeiro livro da escritora e não deve ser nada agradável assistirmos a um impacto negativo nos leitores logo ao primeiro livro.

Começo por apontar dois aspetos que gostei: a capa e a cidade onde se desenvolver a narrativa. Relativamente à capa, acho que está bem conseguida e é apelativa. Coimbra é a cidade que serve como pano de fundo à maioria dos acontecimentos desta estória. É uma cidade que eu conheço muito bem e pela qual tenho um carinho enorme. Por tudo isto, foi muito bom revisitar alguns cantos da cidade que nunca morre no coração de por quem lá passou.

Os problemas deste livro são vários, infelizmente, passo a enumerá-los:
  1. O desenvolvimento da narrativa - da minha perspetiva a estória que nos é narrada é extremamente pobre, cheia de expressões clichés e com pinceladas de psicologia que não dignificam a formação que a autora teve (falo por conhecimento de causa). Não interessa ao leitor os chavões da psicologia, nem as metáforas, nem as reflexões que devem ser circunscritas a um contexto de terapia. Seria muito mais interessante usar os conhecimentos de psicologia para fazer crescer a narrativa em acontecimentos, mostrar-nos personagens com pensamentos e comportamentos complexos... No fundo aplicar o conhecimento e não transmiti-lo.
  2. Os personagens - todos eles muito pobres, demasiado artificiais e nada reais aos meus olhos. Não me identifiquei com nenhuma personagem. Demasiada futilidade em algumas, comportamentos improváveis, uma caracterização medíocre e demasiada infantilidade em pessoas de quem já se exigia alguma maturidade dado o contexto socioeconómico em que se encontravam. Precisavam de estar à altura. 
  3. Diálogos - muito, muito pobres. Somos confrontados com a ausência de descrições coerentes das expressões das personagens e dos seus comportamentos. As conversas de Leonor com a prima do Porto fizeram-me revirar os olhos devido ao discurso estupidificado e sem nexo algum. Uma partilha de psicologia barata que em nada abona à nossa perceção da narrativa. 
  4. O início e o fim do livro - o início pareceu um daqueles chavões de cinema que em nada ajudam no estabelecimento da relação entre os leitores e as personagens que habitam aquelas páginas. Eu precisava que a escritora me apresentasse sentimentos, que colocasse a nu o interior de um homem que já não sabia como viver. E o fim, para mim, foi o pior que a autora poderia ter escolhido. Penso que não revela crescimento das personagens, não nos traz nada de novo e, simplesmente, é aquilo que logo no início achamos que vai acontecer, ou seja, é tudo demasiado previsível.   
Quero, com esta opinião, possibilitar à escritora uma reflexão sobre este seu primeiro trabalho. Talvez não fosse má ideia entregar o manuscrito, antes de publicá-lo, a um ou dois leitores-beta. Se é algo que pretende fazer ao longo da sua vida, acho que se deve ler vários livros, de géneros diferentes e absorver a mecânica da escrita e da construção da narrativa. Tornar-se mais observadora daquilo que a rodeia e não cair na tentação de nos contar uma estória e sim de nos mostrar as personagens, de nos mostrar os seus comportamentos, sentimentos, dilemas. Contar é diferente de mostrar e aquilo que nos cativa enquanto leitores é quando o escritor nos mostra o que está para além das palavras imprimidas naquelas páginas.

Nota: Este livro foi-me cedido pela editora em troca de uma opinião honesta.

Comentários

  1. Sinceramente, penso que actualmente toda a gente quer escrever, toda a gente quer publicar um livro. Depois, dá nisto!

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  2. Tens razão, Maria! Acho que até para escrever e publicar algo há uma altura certa. Por vezes, somos demasiado imaturos para dar qualidade a algo que existe ser cozinhado com o tempo. Penso que, com a escrita dos livros é um bocadinho assim. Não deve haver pressa. Devemos deixar que, primeiro, a estória cresça em nós e, só depois, dar-lhe a qualidade necessário para que possa oferecer alguma coisa a quem a lê.

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