Avançar para o conteúdo principal

Reflexões | Um olhar sobre as leituras beta


Hoje dou início a uma nova rubrica aqui no blog que será dedicada a reflexões de temas variados (aceito sugestões - podem deixar em comentário). Serão textos relacionados com as minhas visões acerca de temas diversos que podem, ou não, estar relacionados com o mundo literário. 

Para o primeiro tema escolhi falar sobre um assunto que me diz muito: as leituras beta ou beta reading. 

Mas afinal o que é isto das leituras beta? 
Muitos escritores, antes de enviarem os manuscritos para as editoras, sentem necessidade de ouvir uma opinião de alguém. Normalmente procuram alguém que consiga encontrar incongruências, assuntos mal explorados, frases confusas... No fundo, procuram alguém que identifique aspetos que, durante o complexo processo de escrita, passam despercebidos.

O que é que eu faço enquanto leitora beta?
Há muitas maneiras de encarar este tipo de tarefa que nos pedem. Pessoalmente, eu sou exaustiva e minuciosa. Gosto de ver tudo quanto é pormenores. Para além disso, a minha formação académica torna-me mais acutilante em alguns temas. Isto reflete-se nos comentários que vão sendo feitos ao longo da leitura.
Gosto de fazer sugestões relativamente aos acontecimentos e desenvolvimento da narrativa, gosto de dar ideias de possíveis caminhos. Estou atenta a frases que me parecem confusas, às incongruências narrativas, personagens mal construídas. Tento ver tudo com o máximo pormenor possível. 
Só tendo este tipo de comportamento me faz sentido. Gosto de ser o mais honesta possível com os escritores que me procuram para fazer estas leituras. O meu papel é ajudar, logo ficar-me por comentários como "Não gostei", "Adorei", não vão ajudar nem servir o propósito do escritor. 

Dicas para quem quer experimentar fazer leituras beta
  1. Ser leitor assíduo - Não faz sentido partirem para leituras beta se não têm hábitos de leitura. Têm de ser pessoas que gostam de ler e que seja uma atividade regular na sua vida.
  2. Aceitar manuscritos de géneros que vos interessam - Se não gostam de ler romances não me parece que sejam uma grande ajuda se tiverem de ler esse tipo de livros. Facilmente se vão aborrecer e achar que está tudo mau. No meu caso, fantasia, distopias são o meu martírio. Já o fiz, mas senti que não fui tão bem sucedida como se se fosse em géneros que aprecio e me fazem pensar.
  3. Estar atentos aos pormenores - Neste tipo de leituras é importante estar atento a tudo o que seja mínimo. Pequenos detalhes fazem a diferença. 
  4. Digam tudo o que vos vai na alma - Escrevam tudo aquilo que o livro vos fez sentir. Se gostaram ou não gostaram, o que mudariam... Mesmo que os autores não concordem com aquilo que comentem, não deixem passar isso em branco. Vocês escrevem o que acham, depois cabe ao autor escolher o que acha mais adequado de acordo com a sua intenção. 
  5. Olhar para as personagens como se elas existissem - Eu gosto de materializar as personagens. Gosto de as tornar reais, de as analisar e esmiuçar e, assim ajudar o escritor à dar-lhes alguma dimensão, a torná-las apelativas aos olhos do leitor.
  6. Escrever um comentário final -  No final de cada leitura eu gosto de escrever um documento onde abordo tudo aquilo que senti com a leitura. Aqui também costumo fazer algumas sugestões de melhoria (por exemplo: indicar alguns acontecimentos que poderiam tornar o livro mais interessante), indicar mudanças mais detalhadas nas personagens... No fundo, devolvo ao escritor as minhas impressões. 
Já perdi a conta aos manuscritos que me passaram pelas mãos. Gostei imenso de todas as experiências que tive. Fico genuinamente feliz por ver as histórias que me passam pelas mãos voar e materializarem-se na publicação de um livro. Sinto-me muito grata pelos contactos que fiz com os mais variados escritores e as experiências positivas superam em grande escala as experiências negativas.

Apesar de gostar muito desta atividade vou entrar num período de "descanso". Andava a ameaçar-me a mim mesma que tinha de para um bocado. Para mim, este tipo de trabalho é uma aventura frenética. Quase que fico com comichão nos dedos para começar a "atacar" os manuscritos. Vivo aquilo de uma forma demasiado intensa e, nesta fase da minha vida, tenho de canalizar estas minhas energias para outro lado. Neste sentido, e pelo menos no próximo ano e meio, vou parar de fazer leituras beta. Poderei contribuir com pequenas coisas, mas não vou abraçar grandes manuscritos. 
Foi uma decisão muito ponderada e pensada. Daqui a um ano e meio logo penso se termino a "licença sabática" ou se me "reformo" desta atividade. 

Comentários

  1. Eu já experimentei leitura beta com um livro por publicar e outro já publicado (não sei se este segundo conta) e não fiquei a gostar assim tanto. Dá trabalho e eu não sou tão minuciosa como tu, não sinto essa intensidade nem a vontade de atacar os manuscritos. Depois também não senti grande entusiasmo por parte do autor. Por isso, acho que tão cedo não volto a fazê-lo.

    Acho que fazes muito bem em tirar uma pausa, um descanso, seja ele longo ou curto. Canaliza as energias para algo que seja importante para ti. :)

    Beijinhos

    ResponderEliminar
  2. O segundo já não conta porque estava publicado. Desta forma já não se enquadra nas leitura beta.
    O entusiasmo dos autores é fundamental!! Isso faz com também nos entusiasmamos com a leitura.
    No meu caso, é algo que me consome imenso tempo.

    É isso que vou fazer. Para já é durante o próximo ano e meio, depois logo vejo. :)
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  3. Olá Silvana,
    Obrigada pela partilha desta tua experiência. Parece ser um excelente desafio, mas realmente é necessário ter alguma disponibilidade. Mas deve ser muito bom para quem gosta de "fabricar" as histórias. Ter o priemiro contacto e perceber o rumo da história...Acho que iria gostar :)
    Adorei o post.
    Beijinhos e boas leituras

    ResponderEliminar
  4. Olá Isa,
    De nada. É mesmo um desafio interessante para quem gosta do mundo literário. Acho que, enquanto betas, também devemos de gostar de "fabricar" histórias. A nossa imaginação também pode ser muito importante para o escritor.
    Também acho que sim, que poderias gostar de o fazer. Se tiveres disponibilidade e vires algum autor a pedir, aproveita e experimenta.
    Obrigada :).
    Beijinhos e boas leituras.

    ResponderEliminar
  5. Olá Silvana,
    Gostei muito de ficar a conhecer a tua experiência! Só fiz uma vez de beta e gostei da experiência.
    Gostava de repetir.
    Beijinhos e boas leituras

    ResponderEliminar
  6. Olá Tita!
    É mesmo uma boa experiência. Vale a pena sentirmos como é estar no papel de ajudantes da construção da narrativa.
    Espero que consigas repetir a experiência. No meu caso, vou mesmo parar por uns tempos :).
    Beijinhos e boas leituras.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Desafio dos Pássaros #2.1 | Acho que a coisa não vai correr bem

Tema 2.1 Acho que a coisa não vai correr bem Mal vi o tema desta primeira edição pensei O que é que eu vou escrever sobre isto? (principalmente quando ando numa fase de pouca criatividade). Os dias iam passando e as ideias não surgiam. Fui engolida pelo rebuliço da semana (rebuliço esse que começou logo no início deste mês) e como tinha uma altura mais vaga na sexta de manhã achei que seria uma boa altura para me dedicar ao tema. Ontem à noite ainda não tinha ideia do que escrever. Começaram a vir outras tarefas e claro que ideia foi, acho que a coisa não vai correr bem ao deixar o tempo avançar sem escrever nada. E, tal como aquelas profecias que se auto cumprem, eis-me aqui em frente à branca e assustadora folha do word sem saber o que vos escrever. Como vos deve parecer bem óbvio a coisa não está a correr bem e a pressão de inventar algo em tempo record levou-me a estes devaneios mentais. Quantas vezes já vos aconteceu as coisas não correm bem depois de na vossa mente formularem o ...

Em três razões

O aniversário do blog aproxima-se (dia 22 de Setembro), por isso achei que seria a altura ideal para lançar uma nova rubrica. Já andava a pensar nela à algum tempo. Os objectivos que fui ponderando na elaboração e construção desta nova ideia foram os seguintes: Permitir a interacção mais próxima com outros blogs; Dar a conhecer novos autores e novos livros; Permitir que esse conhecimento acerca dos livros viesse de uma forma simplificada.  De forma a tornar esta rubrica mais interessante irei colocar uma página no blog para ir apontando os livros que vão sendo apresentados e que ainda não li. Quando se tornarem em número significativo poderei fazer uma pequena votação para ver que livro irei ler em primeiro lugar (poderá ocorrer uma votação por mês, tudo depende da adesão). Como sou nacionalista decidi que este mês a rubrica Em três razões  deveria ser dedicada a autores nacionais. Por isso gostaria que, clicando aqui, preenchessem o pequeno questionário e indicassem três razões para ...

As leituras obrigatórias estão fora de validade?

Tenho-me cruzado com algumas vozes a alertarem para a necessidade de se alterarem as obras de leitura obrigatória na disciplina de Português. As opiniões fundamentam-se na antiguidade das obras, no facto de serem de difícil leitura para os jovens, por não cativarem a população mais nova para a leitura, entre outras. Eu não me revejo nestas opiniões. Não acho que se devam mudar as leituras que integram os programas curriculares. O que acho que deve mudar é a forma como convidamos os jovens para a leitura. Mas vamos por partes. Há jovens que gostam de ler. Porém, nos dias de hoje, a oferta ao nível dos conteúdos digitais e de outros elementos de distração oferecem aos jovens de hoje conteúdos mais apelativos e de consumo mais instantâneo. Este tipo de oferta sacia (por vezes falsamente) as suas necessidades imediatas. Tudo acontece demasiado depressa e a leitura exige tempo, contemplação e reflexão. E grande parte dos jovens considera um desperdício de tempo ler. Acho que daria um estudo...