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Por detrás de uma data| O dia Internacional da Mulher



Por entre festejos e jantares organizados pelo núcleo feminino por estes dias, pergunto-me se as mulheres que aderem a tais festejos conhecem o verdadeiro significado por detrás da data. Presumo que não... Comercializou-se tanto o dia que a parte realmente fundamental deste dia, os direitos das mulheres e a igualdade de género, ficou um pouco ao abandono. 

Nestes dois últimos dias tenho refletido com a Denise (Quando se abre um livro) acerca da "palhaçada" dos jantares que proliferam por esta data (desculpem-me a abordagem, não tenho nada contra este tipo de jantares e respeito as mulheres que gostam de assinalar o dia com este género de festejos). Sim, é uma forma de assinalar o dia tão válida quanto outras formas. Contudo, questiono-me: Será que as mulheres que estão na fotografia acima, as grandes responsáveis por haver um dia Internacional da Mulher, se identificam com tais festejos para assinalar a data? Eu penso que não. Acima de tudo, estas mulheres procuraram lutar por um conjunto de direitos que lhes era negado. Afirmaram-se perante uma sociedade que não as reconhecia. Por isso, será que com os jantares restringidos ao público feminino vamos promover uma cidadania ativa, onde as mulheres têm disponíveis os mesmos lugares que os homens? Será que é assim que promovemos a igualdade?

Afinal, o que fizeram as mulheres da fotografia? Há 161, no dia 8 de Março, um grupo de operárias de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque, fez uma enorme greve e ocuparam a fábrica reivindicando melhores condições de trabalho. Entre estas reivindicações estava a igualdade salarial entre homens e mulheres. Algo que ainda hoje é a nossa luta. 
A ousadia destas mulheres valeu-lhes uma violenta repressão para com a sua manifestação e acabaram trancadas dentro da fábrica, que foi posteriormente incendiada. Cerca de 130 operárias morreram carbonizadas. Em consequência deste terrível acontecimento, a ONU, em 1975 oficializou o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher. 

Custa-me um pouco ver a falta de solidariedade entre humanos, entre humanos e animais e, particularmente entre mulheres. Quantas das mulheres que se juntam para jantar não passam parte do ano a criticar as suas companheiras de mesa? Quantas dessas mulheres estenderam a mão a outra mulher que lhes pediu ajuda? Atenção, não estou a dizer que todas as mulheres são assim. Quero apenas frisar que algumas das mulheres agem assim, porque no fundo o que interessa é ir a um jantar e conviver com pessoas que, em alguns casos, não nos dizem nada e com as quais nem comunicamos assim muito. Não são parte integrante da nossa rede social e pessoal mais próxima. E é do excessivo consumismo que se passou a associar à data que estas coisas se vão disseminando.

Antes de se atirarem aos festejos, gostaria de deixar aqui algumas linhas de reflexão. Reservem um pouco do dia para pensar nas desigualdades sociais, económicas, emocionais que as mulheres têm de enfrentar nos dias de hoje. Pensam nas mulheres que não podem decidir os aspetos da sua vida. A quantidade de mulheres que ainda sofre às mãos de agressores. As mulheres vítimas de assédio sexual. Conhecem uma mulher que precisa de companhia? Ofereçam-lhe alguns minutos do vosso dia. Já há muito tempo que não estão com aquela vossa amiga especial? Marquem um lanche ou um café. Há quanto tempo não tiram um pouco do vosso dia para estarem com a vossa mãe/filha/sobrinha? Pois arranjem esse tempo e partilhem com elas essa coisa tão nossa de sermos mulheres. Liguem aquela mulher especial da vossa vida. Valorizem as mulheres no geral e, em particular, aquelas que fazem de vocês mulheres e pessoas melhores.

Agora, de uma mulher para outras mulheres, a cada dia do ano, e não apenas no dia 8 de Março, lutem pelos vossos direitos, salvaguardando os direitos dos outros. Quando, na corrida da vida, ultrapassarem alguém, façam-no com justeza, delicadeza e gratidão. E, se puderem, estendam a mão a quem vai mais atrás. Não ofereçam comentários desagradáveis a outro ser humano, em particular a outra mulher (hoje ela, amanhã tu). Cuidado com os comentários baratos e ofensivos nas redes sociais. Só se destila veneno e isso não é saudável para nenhuma das partes. Sejam honestas, elogiem em público e apontem os defeitos em privado, dando oportunidade a quem falhou de se corrigir. 

E hoje, lembrem-se do quanto estas operárias lutaram e não conseguiram nada para elas. Porém, abriram portas para que hoje a nossa situação seja diferente da delas. 

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