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Opinião | "O ano francês" de Daniela S. Antunes Rodrigues

O Ano Francês
Classificação: 1 Estrela

Esta opinião poderá conter spoilers.
Não é fácil escrevermos sobre um livro do qual não temos uma visão menos positiva. Neste sentido, aquilo que pretendo com esta opinião é reunir um conjunto de aspetos que possam ajudar a autora na escrita de uma futura obra. 

Em termos formais, a escrita é boa, apesar de ter pelo meio alguns floreados desnecessários e não encontrei erros ortográficos. Quando nos centramos na narrativa, tudo se afasta daquilo que se possa chamar um livro apelativo e com uma história com uma sequência compreensível.
Tudo é muito confuso, não há uma continuidade temporal que nos permita acompanhar os acontecimentos e as motivações por detrás dos mesmos. Foi muito difícil para mim perceber todo o contexto das personagens, de onde vinham, por onde iam e para onde iam. A certa altura, Carlota e Pierre aparecem à procura da meia irmã de Carlota, mas falta a contextualização dessa viagem. Nunca consegui acompanhar a relação de Carlota e Pierre. Começam por um relacionamento conflituoso e terminam apaixonados. Perdi-me nos meandros desta relação pois a autora não me mostrou como isso aconteceu. Não houve conversas, não houve troca de olhares, não houve mostra de gratidão quando o Pierre a ajudou no momento em que ela mais precisava.
As personagens aparecem sem grande contextualização. Parecem que caem ali de paraquedas e eu fiquei um pouco abanada com o contributo dos mesmos para o desenrolar da narrativa (aqui estou a referir-me ao tio que chegou do Oriente).

Se por um lado há personagens que aparecem assim, também há aquelas que desaparecem sem que eu perceba o momento em que isso aconteceu e como aconteceu. O irmão de Pierre, Albert, não teve o melhor comportamento, é certo, mas seria importante para a história percebermos tudo o que lhe aconteceu e para onde ele foi no final.

Sendo um livro de época, as referências históricas são muito limitadas. Existem algumas referências ao vestuário e algumas formas de comportamento, mas são tão esbatidas que me foi difícil contextualizar em que ano decorriam tais acontecimentos.

Depois é toda a forma como o livro está escrito. Há diálogos que não aprecem quando deviam aparecer, não há ligação entre os acontecimentos e as personagens não ganharam dimensão aos meus olhos, ou seja, há falta de boas caracterizações físicas e psicológicas das personagens.

Por exemplo, na página 45:

- Teremos de parar um pouco, aqui os cavalos estão a precisar de descanso. Não importa aos senhores, pois não?
Só no final da fala é que que percebi que era o cocheiro, porque não nos é dada essa indicação.
E depois, continua assim:

Importava. Contudo, que poderiam eles fazer? Pierre saiu do coche para falar com o cocheiro, para saber quanto tempo seria necessário guardar até os cavalos estarem de novo prontos para partir.
- Bem, senhor, então... Os animais têm de comer, que o que não lhes falta é bebida! (...)
Em vez de termos uma resposta de Pierre, como seria normal, temos uma intromissão do narrador e voltamos ao diálogo. Na minha perspetiva ficaria melhor assim:

- Importa sempre um pouco. - Pierre soltou um suspiro aborrecido. - Estamos com pressa de chegar ao nosso destino, mas de nada nos serve uma parelha de cavalos cansados e com fome, só nos atrasaria mais. Tem ideia de quanto tempo será necessário para termos os cavalos prontos?
- Talvez uma hora e meia senhor, e estaremos prontos para avançar. - o cocheiro fez um pequeno aceno de cabeça e retirou-se para tratar dos cavalos.

(ATENÇÃO, não sou nenhum supra sumo da escrita, porém os anos de leitura têm-me mostrado o que funciona e o que não funciona num livro.)

Acho que melhor recomendação que posso deixar à escritora é para ela ler muito. Acredito que para crescermos enquanto escritores temos que ser bons leitores. Ao lermos bons livros conseguimos perceber como funciona a sua estrutura, as interações das personagens e a forma como os acontecimentos têm de ser encaixados numa narrativa coesa e compreensível.

Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela editora em troca de uma opinião honesta. 


Comentários

  1. Lol "um suspiro aborrecido", que vocabulario fantastico. Ainda bem que escreves num blog e nao livros querida

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