
Falar dos nossos interesses e vontades para depois da nossa morte não é um tema muito consensual, nem muito bem aceite no seio da família. Por isso, só muito recentemente (e muitas vezes em jeito de brincadeira) digo que não quero ir para nenhum cemitério e servir de alimento aos bichos, também não quero ser cremada. Aquilo que que eu quero é que o meu corpo seja doado à ciência.
A verbalização desta minha vontade já deu aso a múltiplos comentários e nenhum deles foi favorável. Aquilo que oiço mais vezes é "és doida", "não sabes o que estás a dizer", "meu Deus e ficas sem funeral". Reconheço que viver no interior do país e com mentalidades um pouco paradas no tempo não abone a favor destas "modernices" da ciência e da investigação científica.
Considero-me uma mulher da ciência. Tenho um respeito enorme por aqueles que dedicam o seu tempo a estudar e investigar novas formas de melhorar a nossa qualidade de vida. E apesar de existirem inúmero recursos para o estudo da anatomia nada substitui a realidade e a possibilidade de se estudar em cadáveres humanos.
Até que ponto o nosso corpo pode ser um meio de chegar a novos conhecimentos? Até que ponto o nosso corpo será motivo de descobertas científicas capazes de ajudar outras pessoas?
Não gosto de funerais nem dos rituais associados aos mesmos. Reconheço a sua importância para o processo de luto pessoal, mas para mim são verdadeiros momentos de agonia e de desespero. Assim que comecei a ouvir falar sobre as doações de cadáveres, tenho procurado ler mais sobre o tema e tentar perceber como se processam as coisas e quais as mais valias para a ciência deste ato pessoal.
À medida que vou lendo vou somando certezas e eliminando algumas reservas e dúvidas. Tenho lido vários artigos, opiniões, visões sobre o tema. Quero conhecer tudo o que me seja possível, quero saber como funcionam todos os processos e adoraria visitar os serviços que estão relacionados com a doação de corpos. Quero perceber melhor qual o impacto destas doações nos serviços e nos futuros profissionais de saúde. No fundo, quero ter o máximo de informação para que a minha decisão seja esclarecida.
É claro que nada é assim tão simples e apesar de ir somando as tais certezas relativamente a uma possível doação, não posso esquecer qual o impacto desta minha decisão na minha família atual e numa possível família futura. Sei que para muitas pessoas é importante ter uma campa no cemitério para visitar. Sei que para outras tantas pessoas todos os rituais associados aos funerais são importantes para resolverem interiormente o sentimento de perda. Estes pensamentos sobre os outros e as suas reações acabam por abalar um pouco as minhas certezas. Não quero ser um peso, ou uma tristeza adicional para aqueles que cá ficam. Não quero que as minhas escolhas sejam associadas a algum tipo de egoísmo.
Para mim a doação faz todo o sentido. Talvez só precise que as pessoas à minha volta compreendam e aceitem as minhas decisões. Quero acreditar que ainda me falam muitos dias pela frente, dias onde poderei ler mais sobre o assunto, conhecer melhor os locais que aceitam estas doações, viver muito e intensamente e, assim, tomar uma decisão o mais conscientemente possível.
Gosto muito de saber o que as outras pessoas acham acerca do tema. Por isso, abro aqui a discussão: o que é que acham da doação de corpos para fins de investigação? Seria uma decisão confortável ou desconfortável para vocês?
Adoraria perceber o que pensam.
Olha que tema interessante vieste aqui abordar.
ResponderEliminarPrimeiro, deixa-me dizer-te que não vives propriamente no interior do país xD mas compreendo perfeitamente o que queres dizer quando te referes às mentalidades paradas no tempo.
Confesso que nunca pensei muito sobre este tema, sinceramente. Contudo, concordo com a tua visão, doar o corpo à ciência pode contribuir para novas descobertas, novas formas de ajudar outras pessoas, e é uma forma também de sermos úteis após a morte e talvez também de não encher tanto os cemitérios.
Penso que cheguei a ler que estamos todos "inscritos" para a doação de órgãos, se não quisermos doar é que temos de preencher um documento. Ou estarei enganada? Penso que há algum tempo atrás era o contrário, tínhamos de nos inscrever para doar órgãos.
Mas em relação a doar o corpo não sei mesmo como funciona, nunca senti necessidade de ir ler sobre o tema.
Disseste que não queres que as tuas escolhas sejam associadas a algum tipo de egoísmo, e compreendo o que explicas acima sobre o facto de algumas pessoas precisarem de ter uma campa no cemitério para visitar e cuidar, e isso as ajudar com o processo de luto. Mas, sendo uma decisão tua, será que se pode considerar egoísmo? Afinal, o corpo é teu, tu é que devias ter pleno direito a decidir sobre ele. Não sei se este meu pensamento não será também um pouco egoísta.
Hoje em dia parece que quase tudo é considerado egoísmo, quase que não podemos pensar um pouco em nós mesmos sem sermos logo apelidados de egoístas.
Mas, talvez o mais importante, seja mesmo que as pessoas à tua volta compreendam e aceitem as tuas decisões.
Beijinhos
De vez em quando é bom explorar outros temas para além dos livros.
ResponderEliminarOk, não vivo no interior profundo. Mas é interior e numa pequena localidade.
Eu tenho imensa curiosidade para saber como se processa. Já li que há uma universidade (os corpos podem ser doados às faculdades de medicina) que fazem uma visita com o doador para que ele saiba o que acontece aos corpos.
Sim, é verdade. Todos somos potenciais doadores, se não quisermos temos de preencher o documento. Por isso, estás certa.
Acabas por ter razão. De facto, o corpo é meu. Se eu decidir ser cremada e as cinzas espalhadas aqui no campo à frente de casa (também já disse isso muitas vezes aqui em casa) também não haveria a campa para o culto. Por isso, é como escreveste, talvez não seja egoísmo, apenas uma decisão e visão pessoais.
Tens razão. Tudo é egoísmo... E o verdadeiro egoísmo não é reconhecido. Vivemos para o instante, para a fotografia que postamos nas redes sociais à espera de comentários e de "gostos". Talvez isto seja mais egoísta: viver para alimentar o ego. Enquanto que doar o corpo é apenas uma decisão nossa que visa ajudar quem está investigar. E neste processo de ajuda, acho que o egoísmo se esfuma. Afinal de contas, até estamos a pensar nos outros.
Obrigada pela tua reflexão.
Beijinhos
Bem me parecia que estava certa em relação à doação de órgãos. Lembro-me de termos comentado isso cá em casa.
ResponderEliminarSer cremado também é uma decisão que por vezes alguns familiares não aceitam. Mas quando há testamentos que deixam esse pedido, penso que as pessoas tentam sempre fazer a última vontade ao familiar que partiu.
Sim, sem dúvida que doar o corpo acaba por ser uma atitude mais altruísta. E nem estava sequer a lembrar-me dos comportamentos no facebook. Não há nada mais egoísta e egocêntrico do que estar sempre a publicar fotografias em busca de aprovação.
De nada:)
Beijinhos