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Por detrás da tela | "Chernobyl" (2019)


Classificação: 10/10 Estrelas

Tudo o que eu possa escrever sobre a minha experiência durante a visualização desta mini série será insuficiente. Acredito que vocês só conseguirão perceber tudo se a virem. 
Apesar do pouco conhecimento cinematográfico que detenho, acho que está série está muito bem construída. Há uma coerência na forma como os acontecimentos são apresentados, é muito realista e a banda sonora acompanha na perfeição a carga dramática que cada cena pretende passar.

O acidente na central nuclear de Chernobyl é um elemento marcante na história mundial. Acho que foi a verdadeira caixa de pandora no que toca ao conhecimento das reais consequências que uma catástrofe desta natureza acarreta. Apesar de se conhecerem os perigos, confrontá-los na realidade oferece uma maior consciência. 
O terceiro episódio é particularmente duro pela forma realista com que nos mostra os efeitos da radiação no corpo humano. Eu fui apanhada de surpresa com as imagens. Senti-me um pouco nauseada com o que vi. Contudo, o impacto psicológico acompanhou-me em todos os episódios. Foi emocionalmente dura assistir a algumas situações. 
É uma série cruel, e que nos traz parte da realidade que aquelas pessoas viveram. Deve ter sido horrível. Acho que por muito que tente imaginar, não consigo chegar perto da que realmente sentiram. 

Infelizmente acho que há um aspeto da série que ainda hoje se mantém. Esta catástrofe ainda tem muito por explicar. Interesses políticos, mentiras, omissões estão por detrás dela. Ainda hoje muitos são os interesses políticos que condicionam alguns acontecimentos. E o que perdura nos dias de hoje é o descrédito que os políticos e os governos dão aos cientistas. Aqui na série percebeu-se muito bem que muitas vezes os interesses políticos se sobrepunham ao conhecimento científico. 
É revoltante perceber que há investigação de qualidade que não é considerada por aqueles que tomam decisões em função de um povo. E é esta falta de trabalho articulado que muitas vezes resulta em catástrofe. E nem precisamos de recuar muito no tempo, nem ir a outros países, para perceber que o poder político tem em muito pouca conta a produção científica (basta pensarmos nos incêndios, nas derrocadas em pedreiras e já conseguimos perceber de que forma é que os órgãos políticos consideram a investigação realizada). Isto, para mim, é grave. É grave porque muitas investigações resultam de investimento público, é grave porque eles produzem conhecimento que contribui para uma melhor compreensão dos acontecimentos e é grave porque se ela fosse considerada provavelmente evitaríamos algumas decisões estúpidas. 

É um acontecimento muito recente e com marcas que ainda perduram até aos dia de hoje. E que espero que tenha contribuído para que se tenham tomado medidas concretas para evitar este tipo de catástrofes. 
Há dias vi no telejornal e li numa publicação da internet que se fazem visitas guiadas à cidade. Há algo nestas visitas que me deixa um pouco assustada e não é apenas pelos níveis de radiação (que até parecem que estão em valores aceitáveis). Ver fotografias daquela cidade, com elementos que se mostram tão próximos da minha realidade deixam-me um pouco apreensiva e triste. Eu não sei se teria coragem para visitar Pripyat e Chernobyl. Pripyat é uma cidade fantasma e causar-me-ia muita impressão ver tudo o que ficou para traz e com elementos e objetos tão próximos da minha realidade. É bem provável que saísse de lá e passasse uns quantos dias assombrada pelos pesadelos. 

Por várias razões, acho que é uma série que merece ser vista, pensada e discutida. 

Comentários

  1. Quero imeeeenso ver!!! Quando tiver tempo, será a primeira!!

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  2. Espero que gostes tanto quanto eu.
    É uma série de grande qualidade.
    Beijinhos

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