Amélia sentiu o aperto forte na sua mão, não queria abrir os olhos para que eles não se cruzassem com o olhar sofredor daquele cujas lágrimas caiam. O sofrimento dele era mudo, o dela era histriónico. Ele recolhia-se na sua concha, ela era o vendaval que destruía tudo por onde passava.
− Sei que me estás ouvir, Amélia! Abre os olhos, por favor.
Amélia inspirou profundamente e, continuando de olhos fechados disse:
− Para que é que queres que eu abra os olhos? Para o quanto sofrem os teus?
Ele bufou de exasperação.
− Quando é que vais crescer Amélia?
− Acho que não passarei mais do meu metro e sessenta e cinco.
Largou-lhe a mão com brusquidão, arrastou a cadeira para longe da cama, levantou-se e foi até à janela.
− Sabes onde te encontraram? Sabes em que condições estavas quando te trouxe para casa já de madrugada?
Amélia abriu os olhos e, finalmente encarou-o. Viu tristeza e algo pior. Naqueles olhos, que tanto amor já lhe deram, viu a derrota. Ele estava a desistir dela.
− Desculpa, Óscar. – Amélia começou a chorar de forma intensa e com soluços que lhe descompassavam a respiração.
Ele não se moveu para a consolar. Preferiu virar os olhos para o jardim morto. Morto como a vida que ele tinha sonhado para ele e para Amélia. Sem vida, e sem maturidade como o olhar de Amélia.
− Estou cansado, Amélia! Cansado de te obrigar a crescer. Cansado de te tentar orientar. – Voltou a encarar a mulher vazia que jazia na cama e com o choro mais controlado. – O que queres da vida? Continuar a fugir do trabalho para passares o dia a andar nos carrosséis? A andar nos baloiços do parque? A fumar ganzas com os adolescentes do secundário?
Amélia não tinha resposta para aquilo. Havia algo que a impedia de ter uma vida ajustada a uma pessoa adulta. Para ela, a felicidade emergia da vida daquelas miúdas que não tinham medo de nada, que não viviam reprimidas pelo conservadorismo e religiosidade dos pais… Ela queria sentir aquela liberdade inconsequente.
Óscar voltou para junto da cama. Desta vez não lhe deu a mão. Suspirou, sentia-se abatido e sem energia.
− Não és uma adolescente, Amélia. Precisas de ajuda de um profissional. Precisas de encontrar um propósito para a tua vida.
−Eu sei… Ajudas-me?
Crises existenciais de quando se têm que se deixar de ser um jovem adulto e assumir que a boa vida já passou
ResponderEliminarMesmo
ResponderEliminarÓtima narrativa!
ResponderEliminarObrigada :)
ResponderEliminarSaber pedir ajuda é, também, uma forma de ser adulto. Ou, no caso de Amélia, um passo nesse caminho que ninguém sabe bem onde começa ou acaba levando.
ResponderEliminarBom texto, Silvana :)
(E o #17? Pousaste a pena no #16? Seguirás viagem com os outros do bando? Em qualquer dos casos, que a escrita nunca te falte. E mais uma vez digo: que bom que vieste para aqui! Beijos :))
Bem verdade, Sarin.
ResponderEliminarObrigada.
(Infelizmente o destino pregou-me uma partida. A minha avó faleceu e fiquei sem inspiração para escrever. Foram dias muito complicados, mas aos poucos tudo se alinha. Vou seguir com o bando. Obrigada! Estou muito feliz aqui.)
Beijinhos e boa semana
Lamento o ocorrido com a tua avó. Oxalá as memórias sejam muitas e boas.
ResponderEliminarUm beijo num abraço.
Obrigada, Sarin! Sim, ficaram boas memórias
ResponderEliminarBeijinhos
A Amélia percebeu que precisa de ajuda, já cresceu um bocadinho ;)
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