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Desafio dos Pássaros #2.5. | O grande dia

Tema 2.5.
Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia


Ontem, aquele telefonema abriu a porta para que hoje fosse um dos mais felizes da minha vida. Afinal, aquilo que mais desejei realizou-se.


Levanto-me sem pressa. Tomo o meu banho e visto aquele vestido vermelho. Aquele que sempre esteve guardado para este dia. Assim que fico pronta, faço-me à estrada.


Ao fim de duas horas chego ao meu destino. Ainda vou comprar flores, umas flores especiais e adequadas à ocasião.


Estive demasiado tempo longe deste lugar. Sinto-me um pouco estranha. Foram demasiados anos escondida e longe daqueles que amo e que, nesta altura devem pensar o pior de mim.


Os óculos escuros e o lenço branco permitem-me um certo anonimato. Um anonimato que quero manter até chegar o momento certo. Dirijo-me à igreja que tão bem conhecia e que marcou o início da minha desgraça. Entro e mantenho-me discretamente longe dos familiares do defunto. É claro que olham para mim, uma mulher de vermelho num mar negro de cor é motivo suficiente para despertar a atenção mesmo daqueles que se encontram entorpecidos pela dor.


O funeral começa. Não tenho lágrimas para oferecer ao defunto. Roubou-mas todas no dia em que me atirou pela primeira vez ao chão. Vi a mãe dele, os irmãos o nosso filho e filha dele, ali, a chorar por um impostor que foi morto pelas mãos que o acolheram quando me fui. Ela teve mais coragem do que eu. Arrancou a erva daninha pela raiz. Não consentiu viver afastada do medo que sempre me acompanhou e que hoje irá com ele para a cova.


Sigo o funeral até ao cemitério. O vermelho do meu vestido reluz. E por dentro visto um sorriso de liberdade.


Quando descem o caixão para a terra aproximo-me. Tiro o lenço da cabeça e os óculos. Tudo para! Os rostos incrédulos tingem-se de mais choque. Afinal, devem pensar que regressei do mundo dos mortos. Cuspi para cima do caixão, cuspi para cima das flores e atirei-as com violência para o buraco onde já devias estar há muito. Olhei para o meu filho e aí as lágrimas chegaram.


Decidi quebrar o silêncio.


− Roubaste-me a voz e a vida! Durante 16 anos tive de viver escondida, a carregar na pele as difamações que espalhaste e no rosto as cicatrizes que tu tão bem soubeste fazer com os teus malditos cigarros. Afinal de contas sou aquela que fugiu com o amante. Não te perdoou o que me roubaste. Só espero ainda ter tempo de resgatar o amor do meu filho.

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