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Comecei esta leitura com os dois pés atrás. Ele pertence a um género literário com o qual costumo ter uma relação algo conflituosa. Além disso é um livro muito acarinhado pelos leitores e eu, por norma, sou sempre um bocadinho do contra. Neste momento devem estar a questionar-se, dadas as evidências por mim apresentadas, o que é que me motivou a ler o livro. Bem... A resposta é fácil. Sou naturalmente curiosa no que toca ao livros e vou sempre na expetativa de ser surpreendida. Além do mais, se não tenho reticências em arriscar com um autor internacional porque é que as teria com um autor nacional?
E foi neste misto de emoções que comecei a ler o "Raparigas como nós".
As minhas emoções flutuaram imenso ao longo do livro. Li muitas coisas que não me fizeram sentido, cruzei-me com uma narrativa com algumas incoerências e não me identifiquei nem criei qualquer ligação com as personagens. Porém, houve uma coisa que me prendeu do início ao fim: a escrita. A forma como a Helena tece toda a narrativa é cativante e envolvente. Tão envolvente que, mesmo não tendo vivido aquela adolescência, mesmo o facto muitos dos acontecimentos não terem feito o mínimo sentido para mim ela conseguiu semear em mim aquela nostalgia especial que só as boas memórias conseguem fazer.
Em suma, para mim o ponto positivo deste livro é a escrita.
Relativamente à narrativa há ali muitos aspetos que não me satisfizeram enquanto leitora.
Começando com a primeira e última partes do livro, que decorrem em 2004, não me conseguiram mostrar uma Isabel e uma Alice de 17 anos. Há diálogos entre elas e outras personagens que não me fizeram ver miúdas de 17 anos a lutar pela sua própria afirmação. Há situações que me mostram miúdas demasiado infantis para quem tem 17 anos e outras que me levam a miúdas mais velhas.
As referências temporais são pobres. Do meu ponto de vista, há coisas que deveriam ter figurado. Por exemplo, em 2004 Portugal foi completamente absorvido pelo europeu de futebol e não aparecem referências a tal acontecimento. Até eu, que sou completamente desligada do futebol, tenho muitas lembranças associadas ao EURO 2004.
Há uma outra referência temporal que nos desloca do presente das personagens. A dada altura são mencionados os atentados terroristas em Madrid. As personagens estão no ano em que esses atentados ocorreram, logo não faz sentido dizer "Os atentados que ocorreram em março de 2004".
A data de divórcio dos pais de Isabel é imprecisa e deixa transparecer algumas incoerências na narrativa. Não é nada grave, mas um leitor mais atento facilmente apanha esta lacuna.
A própria vida do Simão é uma confusão temporal que descredibiliza o que ele viveu. São incoerências que vêm desde o tempo em que ele frequentava o 9º ano até à atualidade dele.
Estas incoerências oferecem uma visão irrealista da vida das personagens e da forma como evoluem ao longo do espaço narrativo.
Por fim, outro aspeto que me fez torcer o nariz foi a vontade da Isabel em voltar a ter 14 anos, quando tinha 17. Entre os 14 e os 17 anos não passa assim tanto tempo. O passado não é tão longínquo quanto a ideia que a escritora pretende passar. Aqui encontrei um lado demasiado infantil da Isabel. E só esse lado infantil me explica esta vontade de ela reviver um passado que não foi assim tão feliz e bem sucedido.
As referências musicais foram as que mais gostei e aquelas que mais mexeram nas minhas emoções. Talvez porque também eu tenha memórias associadas a algumas das músicas.
Como já escrevi atrás a adolescência da Isabel e a Isabel em 2004 estão bastante longe da minha realidade. Há demasiada permissividade e liberdade. Os adolescentes que eu conheço e com quem trabalho não têm grande parte das experiências das personagens. Pegar no namorado e levá-lo a dormir a casa dos pais, passar a noite fora com pessoas que mal se conhece, ir a festivais de verão, droga, sexo... Acho demasiado para miúdos de 17 anos, ou pelo menos para os miúdos de 17 com quem lido e para a miúda de 17 anos que fui. Neste sentido, achei que isto foi tudo muito fabricado.
A Isabel sentia-se uma rapariga estranha. Também sempre me senti estranha, mas eu sou bem pior que a Isabel. Aliás, eu jamais me iria colocar em situações ou relacionar-me com pessoas que fossem contra os meus princípios. Esse tipo de esforço pelos outros sou incapaz de fazer. E pensei que a Isabel também seguisse nesse sentido. Aquilo que a Isabel diz ser não acompanha aquilo que a Isabel faz.
Quando Isabel recorda a sua passagem pelo 9º Ano, eu também recordei o meu. E nessas recordações couberam todas as diferenças em termos de vivências. Foi dos anos mais felizes da minha vida. Não havia uma melhor amiga, mas havia um grupo de rapazes que me fizeram sentir integrada num grupo. Também tive um "Simão". O meu não se metia em alhadas, nem fazia coisas parvas para me impressionar. Recordo-o como das melhores amizades que fiz na vida. Tratava-me bem, cuidava de mim. Na cultura escolar de uma cidade pequena, no interior norte de Portugal, não cabiam "Marisas das argolas". Cabiam histórias de vida iguais à da Marisa que mereciam a união da comunidade escolar. Éramos miúdos de áreas rurais que valorizávamos outras coisas.
Para finalizar esta opinião (que já vai muito longa) quero destacar dois aspetos. Em primeiro, acho que pode ser um bom livro para os adolescentes lerem. Penso que se poderão identificar com algumas coisas e dar aso a fantasias de independência que guardam dentro deles. Em segundo, quero deixar claro que a pontuação deste livro surge pela escrita. Podemos não nos identificar com a história, podemos não gostar das personagens mas a escrita tem a capacidade de criar algum tipo de ligação.
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