Avançar para o conteúdo principal

Opinião | "A bailarina de Auschwitz" de Edith Eger

P_20200313_113108_HDR.jpg


Aqui está o exemplo de um livro cujo título e a capa não ilustram de forma fiel o conteúdo destas páginas. Se para mim este desencontro entre o aspeto exterior e o interior do livro se traduziu numa bela surpresa, acredito que para outras a experiência de leitura tenha sido menos interessante e em dissonância com as expetativas que possam ter criado. 


"A bailarina de Auschwitz" é a história de Edith Eger. Uma história de vida que ultrapassa os limites impostos por este título. Sim, ela era uma bailarina. Sim, ela dançou em Auschwitz. Porém, estes dois elementos são uma pequeníssima parte de um livro que me apaixonou  e prendeu a atenção.


Edith inspirou-me e levou-me por entre diversas reflexões pessoais. Ler é uma experiência muito pessoal. A vivência e a relação que eu estabeleço com um livro é única e procuro que ela sobressaia nas opiniões que escrevo. Nem sempre é possível fazê-lo, porque implicaria demasiada exposição e não é meu objetivo colocar aqui todos os meus fantasmas pessoais. Este livro permitiu-me criar uma relação mais estreita com o que li, talvez porque olhei para a terapeuta Edith e vi a terapeuta que eu quero ser. 


A 2ª Guerra Mundial serve como um marco temporal nas partilhas de Edith. Há um período antes da guerra, onde a Edith nos apresenta a sua família e as fragilidades e forças que os unem. Passamos depois para fase onde a jovem Edith sofre o resultado da estupidez humana. Depois o livro muda um pouco de tom para que o leitor possa assistir ao crescimento pessoal e à crescente libertação interior de Edith.


Foi duro conhecer as vivências de Edith enquanto vítima do Holocausto, mas os relatos não foram muito diferentes daqueles que já surgiram noutros livros que se centram neste período negro da História Mundial. Assistir ao crescimento pessoal de Edith depois da Guerra, conhecer a terapeuta em que ele se tornou e ter o privilégio de ler sobre a intervenção dela em alguns dos seus casos clínicos foi magnífico. Tirei apontamentos, refleti sobre a forma como devemos abordar determinados casos e fui convidada a ir mais além; olhei para dentro de mim, para os meus próprios sentimentos de culpa, para minhas coisas mal resolvidas e tentei desconstruir isto tudo da mesma forma que Edith se libertou dos seus fantasmas. Ler este livro foi, também, uma viagem interior. Não ficou tudo resolvido. Se em alguns assuntos encontrei paz, noutros o desassossego ainda permanece. Contudo, o nosso crescimento pessoas é mesmo assim: a constante procura de equilíbrio entre paz e desassossego. 


Foi uma das viagens de leitura mais interessantes que fiz nos últimos tempos. Considerando todas as características deste livro, reconheço que o mesmo poderá não se revelar tão interessantes para pessoas que não se interessam por desenvolvimento pessoal, psicologia... O facto de ser psicóloga e procurar muita inspiração naquilo que vejo e leio de forma a transportar aprendizagens para o meu contexto fez com que esta leitura tivesse um impacto muito positivo em mim.  


Classificação

Comentários

  1. Fiquei com vontade de ler, não só pela época que retrata, mas também pela experiência de vida, a qual, penso, nos poderá de alguma forma ajudar a ultrapassar aquela que estamos a viver, não que seja igual, mas porque nos exige muita força mental para o conseguirmos, sendo que foi isso um dos maiores trunfos dos sobreviventes, o seu legado é demasiado precioso, é importante que o cultivemos. Há dias ofereceram-me "O Farmacêutico de Auschwitz" ...

    ResponderEliminar
  2. Verdade! A força mental destes sobreviventes, quer enquanto prisioneiros quer enquanto pessoas que vivem com diversos demónios, é verdadeiramente inspiradora.
    "O Farmacêutico de Auschwitz" deve ser interessante! Espero que gostes. Depois partilha o que achaste.

    ResponderEliminar
  3. É um livro que me desperta imensa curiosidade!

    ResponderEliminar
  4. Dependendo das expetativas que tens para este livro poderás ter uma excelente experiência de leitura e gostares do livro ou poderás ter uma leitura apenas agradável. É um livro diferente quando comparado com outros livros sobre o Holocausto.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Palavras Memoráveis

Quer dizer que podemos fazer isto juntos. Quer dizer que me deixas furar a carapaça. Só assim é que isto pode resultar. Tu deixas que eu te magoe e eu deixo que tu me magoes. Tess Gerritsen, A pecadora

Por detrás da tela | Love, Rosie

Classificação: 5 Estrelas Já há muito tempo que por aqui não aparecia uma opinião a um filme. A realidade é que já não via um filme há muito, muito tempo.  Há uns dias, enquanto via trailers no youtube cruzei-me com este Love, Rosie  e fiquei logo com curiosidade para o ver.  Adorei o filme. Eu tenho um carinho especial por histórias de amizade que, aos poucos, se vão solidificando em algo mais importante. E assim nasce um amor... Porém, nem sempre é fácil chegar a essa conclusão acerca dos novos sentimentos que vão aparecendo.  Rosie e Alex são os protagonistas deste filme e adorei as interpretações de ambos. Transmitem muito bem os sentimentos, têm um entendimento que contribui muito para a história em si.  O enredo acaba por ser simples, mas muito bonito.  É um filme para todos aqueles e aquelas que gostam de romance e de dramas que tendem a afastar caminhos que deviam estar a cruzar-se algures nos trilhos do destino. Só no fim do filme é que me apercebi que era uma adaptação do li...

Por detrás da tela | "Call me by your name" (2017) e After (2019)

Call me by your name Assim que terminei de ler o livro, achei que era uma boa ideia ver o filme. Foi a decisão mais acertada!  Temos um filme bastante fiel ao livro, porém há passagens no filme que eu só as compreendi na sua totalidade porque tinha lido o livro (mais especificamente a sequência de cenas com os calções do Oliver).  É um filme que cheira a verão. Que me fez querer ir uns dias para aquela casa, para aqueles pomares , só para sentir o cheiro da fruta madura e a frescura das águas. Isto resulta de um excelente trabalho na construção das cenas e numa boa captação dos cenários. A narrativa do filme acompanha a narrativa do livro, exceto a parte final. A intensidade da história de Elio e Oliver, a descoberta daquele amor, as dificuldades em geri-lo são aspetos que fazem parte da ação central do livro e que aparecem muito bem representados no filme. Eu estava com algum receio relativamente à forma como o livro seria transportado para o filme. Este receio tinha como base a minha...