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Nas páginas do meu caderno #4

Olá Alice,


Bem... Nem imaginas, fiquei incrédulo quando abri a caixa de e-mail e vi lá o teu e-mail. Depois do choque inicial, um ataque de riso tomou conta de mim. Gabo-te a coragem do contacto e a admissão daquele comportamento infantil que me deixou um pouco magoado.


Quando nos cruzamos, pensei que me ias dizer qualquer coisa. Pior! Que me ias sorrir para eu matar as saudades de ver um sorriso teu. Sempre fui demasiado crédulo na bondade do ser humano. Continuo sem perceber muito bem porque me evitaste. Sentiste insegura porquê? Gostava que me contasses, que me explicasses. Acho que eu nunca te alimentei as inseguranças. 


Sim, é um bocado arrogante da tua parte queres saber como eu estou. Demorei a responder-te porque não sabia se te queria responder. Mas depois a curiosidade de saber de ti falou mais alto. E, sim, também me deixaste saudosista. É que nas redes sociais não apanho nada de ti. Nem uma fotografia para amostra! Só vejo livros e paisagens. Estou em desvantagem. Acabas por saber mais de mim do que eu de ti.


Então, queres saber como eu estou! Desde aquela altura muita coisa aconteceu. Como sabes, deixei a escola e fui trabalhar. Tantas vezes me disseste que era parvo desperdiçar as minhas capacidades. Tantas vezes elogiaste o meu raciocínio matemático. Parecia que te ouvia sempre na minha cabeça, a zumbir como uma abelha. Então, aos 18 anos, voltei à escola. Fiz o secundário à noite enquanto de dia trabalhava numa carpintaria. Consegui fazer tudo direitinho. No final do 12º ano, fiz os exames e entrei na universidade. Entrei em contabilidade. Deixei a carpintaria e passei a trabalhar num supermercado para conseguir estudar. Foram anos duros, mas andava muito realizado. 


Durante a universidade conheci uma rapariga fantástica. A Sofia foi fenomenal comigo! Ajudou-me com tudo. Sim, tornamo-nos namorados. Um namoro longo que só terminou há quatro anos, quando me mudei para Luanda. Recebi uma proposta muito boa de trabalho. Ela não me quis acompanhar e a distância não facilitou as coisas.


Estou a adorar a experiência, mas começo a sentir falta de algumas coisas de Portugal. 


Naquele dia, quando nos cruzamos na passadeira, não queria só ver o ter sorriso. Queria agarrar-te no braço, arrastar-te para uma mesa de uma pastelaria contar-te a volta que dei à minha vida e, mais do que isso, queria ouvir-te a falar das voltas da tua vida. Sempre foste aquela amiga que eu queria para a vida. Sim, eu ouvia-te! Sim, aturava todas as tuas neuras e coisas parvas! Mas tu também me ouvias, tu também me abraçavas. Só tu era capaz de trocar aquele sorriso de reconhecimento do que me ia na cabeça. O problema é que sempre procurei isso nas raparigas que fui conhecendo. Encontrei na Sofia, mas não com a mesma intensidade que partilhei contigo. 


Tenho medo, sabes! Medo de que este reatar de contacto estrague a magia daqueles anos. 


Como vês, o meu bom coração continua intacto. Respondi ao e-mail sem amargura. Ela nunca existiu. Mas quero saber de ti. Talvez saber de ti, me ajude a acreditar que há magia que permanece para sempre.


Bejinhos,
Duarte


(Resposta à carta da Alice)

Comentários

  1. Olha que bom, o Duarte respondeu à Alice! Será que ela vai querer marcar um encontro? Ou irão continuar a correspondência por e-mail?

    Estou a gostar imenso destas cartas!
    Beijinhos

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  2. Isso agora!! Deixa primeiro o que é que a Alice lhe responde!! :)
    Obrigada.
    Beijinhos.

    ResponderEliminar

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