A Elisabete suspendeu os desafios e eu decidi voltas às cartas.
Carta para alguém da tua infância
Olá Celina,
És, provavelmente, a última pessoa a quem eu pensaria escreve uma carta. Porém, agora, adulta, consegui perceber que as palavras possuem uma enorme capacidade de cura e eu quero curar-me do horror que me causaste.
Não sei como és agora, mas naquela altura fizeste-me sentir que a escola é uma selva onde ou matas, ou morres. Eu não matei, mas morri nas tuas mãos. Felizmente, não foi uma morte definitiva. Foi mais uma espécie de morte psicológica. Tiraste-me a alegria, a companhia e a capacidade de confiar nos outros.
De cada vez que, sentada atrás de mim nas aulas, me chamavas cabra, vaca, puta e sei lá mais o quê, pois apesar de má aluna a português tinhas um léxico malvado profundamente elaborado; um pedaço de mim morria e queria enterrar a cabeça, esconder-me do mundo. De todas as vezes que me excluías das brincadeiras, roubaste-me a capacidade de saborear as amizades da infância. De todas as vezes que manipulaste toda a gente de maneira a deixares que eu fosse almoçar sozinha à cantina, permitiste-me aprender que, por vezes, estar sozinha era sinónimo de sossego e libertação.
Doeu quando nenhum adulto da escola reconheceu o meu problema. Doeu ouvir a diretora de turma dizer à minha mãe que “afinal de contas, eram apenas coisas de raparigas”. Sentia-me tão impotente! E nem aquela espera à porta dos balneários de educação física, onde tu e as tuas seguidoras me encurralam contra a parede e me ofenderam ao ponto de eu desmaiar e perder os sentidos, foi suficiente para abrir os olhos dos adultos que continuaram a achar que era tudo coisas de miúdos.
Podia ter seguido o caminho mais fácil. Podia ter mudado de escola para deixar de te encarar. Para deixar de ter que ver o teu sorrisinho estúpido e de quem conquistava o poder no recreio da escola. Deixava de assistir aos desfiles pela escola fora como se só tu fosses a rainha lá do sítio. Mas decidi ficar e enfrentar-te. Comecei a responder aos teus ataques. Na minha cabeça imaginava que te espancava de todas as maneiras possíveis e isso ajudou a ignorar-te em algumas alturas.
Aos poucos foste-me deixando em paz. Talvez porque a tua atitude para comigo não provocou alterações nas minhas notas. Talvez porque, com o tempo, deixei de me mostrar frágil aos teus olhos. Chorei muito em casa! Chorei muito na casa de banho da escola! Chorei pela solidão para onde me atiravas todos os dias.
Hoje, para mim, é fácil reconhecer os sinais de abuso psicológico nas crianças. É fácil, para mim, descobrir as vítimas na selva que pode ser o meio escolar e, só por isso, sou-te grata. Tem facilitado imenso o meu trabalho enquanto profissional. É tão bom fortalecer estes miúdos e miúdas. É gratificante ver que é possível transformar o espaço da escola num lugar mais pacífico.
Quanto a mim, as feridas estão curadas. Hoje, com esta carta, encerro o meu processo de cura e libertação. Posso ser uma pessoa solitária, com tendência para os silêncios, mas aceito que é parte de mim. E, as poucas pessoas que vou deixando entrar na minha vida, aceitam-me, respeitam-me e gostam de mim assim. E essas pessoas foram-me ensinando a confiar e mostram-me que é a amizade pode ser um lugar muito bonito.
Estou livre! Se um dia passar por ti na rua, acho que até sou capaz de te oferecer um sorriso sincero.
Sê feliz, Celina!
Sara
O desafio para vocês, leitores deste humilde espaço, é tentar perceber se isto é ficção ou realidade. Gostava de saber a vossa opinião.
Soou a realidade, mas ou está muito bem escrito, ou só podes ter passado por aquilo que descreves. Infelizmente, muitas crianças passam pelo mesmo, e poucos adultos conseguem dar por isso. No fundo estou a torcer para que seja ficção.
ResponderEliminarEu diria que é realidade. Não sei se aconteceu algo do género contigo, mas comigo aconteceu, numa altura em que nem sequer conhecíamos a palavra bullying, em que os professores não davam muita importância, diziam que "eram coisas de raparigas" ou "isso é normal entre rapazes".
ResponderEliminarAinda bem que pelo menos essa experiência permite que consigas ajudar outras crianças.
Beijinhos e, caso tenhas passado realmente por isso, lamento imenso.
Pode ser ficção,mas pars muitas meninas é realidade!adorei o trxto.no fundo todos tivemos uma ou duas celinas na nossa vida,e pior quando nos deparamos com elas na vida adulta! Adorei o texto.
ResponderEliminarInfelizmente estas realidades acontecem mais do que deveriam .
ResponderEliminarHá duas realidades misturas nesta história: a minha e a de outra pessoa.
Ser vítima de agressão em contexto escolar é algo que não se esquece. No meu caso, acabou por moldar uma personalidade mais dada à solidão. Sou uma solitária .
Obrigada.
Nesta história cabe a minha realidade e a de outra pessoa. Portanto, sim, o que aqui está descrito aconteceu.
ResponderEliminarÉ horrível quando se desvaloriza este tipo de situações. Felizmente, há uma maior sensibilidade dos professores e auxiliares, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Já passou! Também lamento que tenhas passado por isto.
Beijinhos
É um texto baseado em duas realidades: a minha e a de outra pessoa.
ResponderEliminarInfelizmente é uma realidade para muitas meninas.
Obrigada