
Comecei esta leitura com baixas expetativas. Não vos consigo explicar os motivos. Era como se cá dentro achasse que não iria conseguir amar esta história e as suas personagens. Mas sabem o que é que aconteceu? Estas 132 páginas quebraram todos os preconceitos que alimentei antes de começar a ler.
A ação central do livro decorre durante a Guerra Fria. As personagens de Aroa movimentam-se numa cidade divida pelo muro, Berlim. O muro separa dois lados com condições sociais diferentes, com oportunidades diferentes, com visões políticas diferentes e com esperanças no futuro distintas... Mas, acima de tudo, separa vidas e pessoas. Katia e a família vivem no lado ocupado pelas forças da URSS. O seu pai, um homem embrenhado na política, tem um enorme amor pelas filhas e pela esposa. Contudo, o destino, ou um nova forma de amor, trocou as voltas de Katia. Ela transpõem o muro físico, mas os muros psicológicos que cresceram à sua volta acabam por atraiçoá-la e transformam-se numa angústia que ela vai internalizando.
O muro físico limitava a movimentação das pessoas, mas os muros psicológicos de Katia dificultaram mais a sua vida, trouxeram-lhe uma expressão de sofrimento que ela desconhecia.
Estes muros psicológicos fizeram-me refletir muito. Refleti sobre as escolhas da Katia, sobre a provações com que ela se viu confrontada. Sofri um pouco com ela e e com a sua ingenuidade, a mesma que a levou a escolhas impulsivas. Pensei, também, sobre os meus próprios "muros" e nas limitações que eles me trazem.
A escrita de Aroa é singular. Uma bela narração, por vezes quase poética, onde os diálogos se misturam no texto. É uma particularidade que comecei por estranhar, mas que depois aceitei bem e a leitura fluiu em mim. É engraçado que esta escolha da escritora ofereceu um tom mais intimista à história. É como se os acontecimentos se desenrolassem à minha frente e eu estava inserida na cena como mera espetadora.
É um livro com uma história extremamente reflexiva. É aquilo que eu chamo de livro interior, porque a narrativa me empurrou mais para o interior das personagens do que para a ação da história. Neste livro, o mundo interior da Katia, dos seus pais, da sua irmã, do homem que roubou o coração da Katia sobressaiu aos meus olhos. Os acontecimentos eram os elementos essenciais para o desencadear das minhas reflexões e das minhas preocupações em perceber o que desassossegava e inquietava cada uma das personagens.
O final chega depressa e com ele chega um desenlace duro para Katia. Ao fim de muitos o muro físico desaparece e desencadeia uma demolição dolorosa dos muros psicológicos. Estas últimas páginas foram duras para mim. Esperava algumas coisas, outras foram uma verdadeira surpresa e foram o reflexo da intensidade emocional que acompanhou toda a narrativa.
Dá para perceber que eu gostei muito do livro. Só não consigo dar uma classificação superior porque senti falta de uma maior contextualização socioeconómica e política e de um final um pouco mais pormenorizado.
Fiquei um pouco obcecada com a contextualização social e política que marcaram a República Federal Alemã e tudo o que envolveu a Guerra Fria. Na minha memória existia apenas o acontecimento da queda do muro de Berlim. Tudo o que antecedeu a construção deste muro e aquilo que levou à sua queda eram lugares desconhecidos para mim. Peguei nos meus antigos livros de História do ensino básico e fui à procura de mais informação. Muito pouco aparece nos livros! Lá me resignei a procurar online.
É tão bom encontrar livros que nos provocam sede de conhecimento.
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Nota: Este livro foi-me disponibilizado pela Porto Editora em troca de uma opinião honesta.
Ainda não tinha ouvido falar deste livro e também nunca li nada sobre a época, apesar de me despertar severamente o interesse. Pelo que dizes o livro não é grande e isso é um fator positivo para mim, que tenho alguma dificuldade em ler "calhamaços". Vou adicioná-lo à lista! :)
ResponderEliminarÉ super pequeno, Patrícia!
ResponderEliminarEspero que gostes do livro .