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Nas páginas do meu caderno # 11

Atreves-te a Escrever_.jpg


A Elisabete e a Vera lançaram um desafio de escrita no instagram. Vou participar consciente das minhas limitações temporais. Os temas sairão ao domingo e teremos de os partilhar até sexta-feira.
Esta semana, o desafio é construir uma história partindo de umas frases iniciais (vou colocá-las a uma cor diferente). Vejam o que me saiu.


A casa abandonada ergue-se perante mim, altiva, severa.


Engulo em seco.


Não sei o que é que me deu na cabeça para meter aqui os pés.


− Preparada? – O entusiasmo na voz do meu chefe gela-me a alma.


− Só podes estar a gozar! – Olho para ele sentindo-me completamente perdida. – Se bem me lembro, na ficha da descrição da missão tinha “O anjo que aceitar esta função terá de ser criativo, resiliente e gostar tanto de rotinas como de coisas inesperadas. É esperado que o(a) funcionário(a) celestial seja capaz de trazer brilho a uma vida de sombras”. Bem, isto é uma casa abandonada, não sei muito bem a que vidas te referias.


− Sempre foste muito impaciente, Muriel. – Gabriel coloca a mão no meu ombro como se quisesse refrear o meu estado ansioso. – Agora a casa está abandona, mas em breve receberá novos habitantes. Tu chegas antes para que te possas apropriar do espaço.


− Ai é? E então quem vem para cá?


− Esta casa irá receber uma mãe, um pai e um filho. A tua missão será iluminar a vida do Rodrigo.


− Já começa a ficar interessante!


Caminhamos até à escadaria da casa, onde nos sentamos. Desta perspetiva conseguimos observar o jardim devoluto e sem vida. Tal como olhar do Rodrigo que sobressai da fotografia do dossier que Gabriel acaba de abrir à minha frente.


−  Como podes ler, Rodrigo é um menino de dez anos que vai ter alta do hospital depois de uma tentativa de suicídio que, felizmente, correu mal. Os pais estão muito preocupados. Sabem que ele sofre na escola, mas não conseguiram identificar as causas desse sofrimento. Para tentar reverter a situação, acharam que uma mudança poderia ajudar à recuperação do filho. Acreditam que começar de novo e num lugar diferente trará vida ao olhar mortiço e apagado do filho.


− Mas tu sabes o que levou o Rodrigo a atentar contra a própria vida e omitiste propositadamente da história desta família, não foi? – instantaneamente sai-me um bufo de impaciência. – Gostas muito de me dificultas as missões.


Gabriel solta uma gargalhada bem sonora.


− Eu sei que gostas de desafios. Se te desse a informação toda, irias perder esse entusiasmo que incendeia agora no teu olhar. E, tal como eu, acreditas que a magia do nosso trabalho está em descobrir as fragilidades e transformá-las em forças. Dar-te a informação toda seria minimizar a tua capacidade de investigação e impedir que cries uma relação positiva com esta família.


Sorrio! Ambos sabemos que ele tem razão. Conhece-me demasiado bem para saber como lido com as missões celestiais. Sou um anjo inquieto. Vou passando os olhos pelo processo do Rodrigo.


− Porra Gabriel, diz aqui que ele não acredita em anjos; nunca teve amigos imaginários e odeia coisas relacionadas com fantasia. Antevejo umas primeiras semanas dolorosas.


− Estás a altura do desafio, Muriel. – Gabriel pega-me na mão e aperta-a gentilmente. – Sei que daqui a uns tempos vamos ter um Rodrigo com uma alma nova. Esta casa abandonada irá ganhar luz, cor e vida; coisas que irás introduzir também na vida do Rodrigo. Confio em ti!


Abraço-o com força. Quero guardá-lo na memória e no coração para que as saudades sejam menores durante o nosso afastamento.


− Vou ter saudades tuas Gabriel… - sussurro-lhe ao ouvido.


− Não serão maiores que as minhas.


Continuamos abraçados durante mais algum tempo. O nosso abraço guarda amor, amizade, respeito. Guarda uma magia especial que se começa a espalhar um pouco pela casa sinistra atrás de nós e pequenas transformações começam a acontecer no espaço outrora mais sombrio. Vejo algumas flores a nascer no jardim à nossa frente e o sol ilumina o jardim. Terminamos o abraço para ver melhor as pequenas transformações. Gabriel sorri.


− Parece que já começaste a espalhar a tua luminosidade. Isto já não parece tão severo.


Pego-lhe novamente na mão.


− Sabes perfeitamente que a minha luminosidade é mais intensa e mais mágica quando estás comigo.


Sinto o amor a espalhar-se o rosto de Gabriel e o meu coração explode de alegria. Se alguma vez duvidar das minhas capacidades nesta minha nova missão, bastará lembrar-me dos olhos dele a olhar para mim neste momento.

Comentários

  1. Ohhhh, que texto tão querido! Gostei imenso!
    Deste muito bem a volta ao tema, parabéns! Fiquei com vontade de mais.

    Mas porque é que eu só me viro para coisas tenebrosas e macabras?? Devo andar com uma gigantesca nuvem negra por cima de mim. :P

    Beijinhos

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  2. Obrigada .
    Eu também pensei em coisas macabras, mas achei que a tendência das pessoas seria ir por aí. Parecia demasiado óbvio e eu queria uma coisa diferente. Então andei a "cozinhar" o tema na minha cabeça para fazer algo diferente.

    Beijinhos.

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  3. Belíssima volta, apetece torcer para que a missão de Muriel seja bem sucedida. Apetece ver o Rodrigo com um sorriso na cara.

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  4. Daniela, tive curiosidade e fui espreitar o teu texto. Muito bom, também conseguiste dar-lhe uma bela volta. Suspense e final surpreendente, dava um filme.

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  5. Ohh, muito obrigada por teres ido ler!
    É bom conhecer as opiniões dos leitores; sou bastante insegura com o que escrevo e tenho andado a escrever com pouca regularidade, pelo que é ótimo ver o feedback das pessoas em relação a estes pequenos exercícios de escrita.

    Beijinhos

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  6. Fofura e o sentiment por esta leitura

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  7. Que fofo 😍😍 diz-me que este conto tem continuação. Merecia ahah
    Beijinhos

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  8. Obrigada .
    Não, não tem continuação e dificilmente terá. Fantasia não é a minha praia. Nem para ler, nem para escrever. . Este conto saiu assim um pouco por acaso.
    Beijinhos

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