
A imperfeição da infância
Já é tarde de mais. Eles querem vingança. Não tenho escolha senão fugir.
Aquilo que eu fiz é irreversível, assim como os danos do passado. Pensei que estavam apagados da minha mente. Afinal, estavam apenas adormecidos. Estavam marcados em mim. Estavam guardados no meu inconsciente à espera que algo os ativasse. Hoje foi o dia…
8 horas antes
― Enfermeira, pode chegar à sala três?
Olho para a Dona Firmina e noto-lhe a tensão nas linhas do rosto.
― Algum caso grave?
Dona Firmina acena afirmativamente com a cabeça.
― Retirei-as da sala de espera. Não consegui deixar aquela criança ali, pareceu-me tão desprotegida.
Aquilo estava a intrigar-me. Levanto-me e vou ver o que tanto inquietou a senhora da secretaria.
Sentada na marquesa, uma criança magra e de cabelo revolto fitava-me. Os olhos grandes e inexpressivos cruzaram com os meus. Estavam sem vida e sem a tão característica inocência infantil. Ao lado, uma mulher ligeiramente furiosa, zangada. Estava impaciente, andando de um lado para o outro. Só parou quando me viu.
Aproximo-me da criança. Deve ter uns dez anos. Tento tocar-lhe, mas ela retrai-se. Viro-me para a mulher.
― Quem é esta menina? O que é que lhe aconteceu?
― Essa fedelha é minha filha. Cheguei do trabalho e encontrei-a no quarto encostada a um canto, nua e com sangue a escorrer-lhe pelas pernas abaixo. Quase de certeza que foi o período que lhe apareceu. – A mãe olha para a filha e solta um riso escarninho, de gozo perante o sofrimento da filha. ― Mas sabe o que é que ela disse? Que era o pai que lhe andava a fazer mal! Acha isso normal, senhora enfermeira?! O meu marido é um homem maravilhoso!! Cuida de mim como ninguém, ama os filhos de forma incondicional e esta fedelha decide denegrir a imagem do pai
Olho para aquela criança e reconheço os sinais. Os sinais de quem sofre há muito, em silêncio. O sofrimento que nasce de um medo que nunca acaba. O sofrimento que nasce num coração de quem sabe que ninguém irá acreditar nela. Apetece-me abraçá-la, mas sei que ela se sente tão suja que não permitirá a minha aproximação. Não preciso que aquela criança me verbalize algo que confirme aquilo o que a mãe disse. Esta criança disse a verdade, uma verdade que mãe não quis ver. Uma mãe vazia de afeto.
― Vou ter de chamar a polícia e a assistência social.
― Mas está a gozar comigo? Observe a miúda e veja se é mesmo o período ou se está com alguma infeção. Quem nos garante que ela não andou a brincar com as suas partes intimas e foi um pouco longe de mais. – ri-se perante a perspetiva da filha ter-se masturbado. - Olhe , já agora ensine-lhe como se usa um penso ou um tampão, porque eu não tenho jeito para isso.
Termina de dizer isto e olha para mim. Percebe o meu choque.
― Não ouviu o que eu lhe disse? Vá despache isto para irmos embora.
― Desculpe, mas não sairá daqui enquanto as autoridades competentes não chegarem – viro-me para a Dona Firmina. Vejo-lhe as lágrimas nos olhos. – Por favor, Dona Firmina ligue para a polícia e passe a chamada para esta sala.
Depois do telefonema tudo se processou de forma rápida e eficiente, com alguns gritos e resistência à mistura. Mãe e criança foram levadas para o Instituto de Medicina Legal para as perícias e o meu envolvimento com o caso terminou aqui.
Porém a minha memória atraiçoou-me e transformou-me naquela criança assustada que sofreu nas mãos de um tio porco e sem escrúpulos.
O sofrimento apoderou-se de mim. Foi como se uma mão com grandes unhas se cravasse no meu coração fazendo-o sangrar e doer. Há anos que terminei o contacto com o monstro, mas sabia onde ele andava. Sabia que ele continuava a viver a sua vida como se nada tivesse acontecido. E se ele tornou a fazer mal a alguém? Este pensamento começou a corroer o meu pensamento. Entranhou-se em mim e semeou um enorme sentido de vingança. Estes anormais tinham de ser eliminados da face da terra.
Terminei o turno e fui para casa. Não tinha pressa de chegar, porque sabia o que iria acontecer a seguir.
Cheguei e nem desliguei o carro. Fui à garagem pegar no revólver que tinha no cofre. Carreguei-o com duas balas. Voltei para o carro e deixei que a minha dor me levasse.
Uma hora depois estacionava em frente da casa mais triste da minha infância. Saí do carro, fui para a porta e toquei na campainha. Só ele viria abrir a porta. Era viúvo há um par de anos. Os passos dele soavam cada vez mais perto da porta. Ouvi a chave rodar na fechadura. Ele abriu a porta e o olhar de reconhecimento foi embaciado com o medo de me ver ali. Isto fez-me sorrir. Ergui o revólver e ofereci-lhe um tiro em cheio na testa. Não houve palavras, porque há dores que não cabem nelas.
Agora
Depois do meu ato de coragem, regressei a casa. A adrenalina foi substituída pelo medo. Sabia que os meus primos viriam atrás de mim. Foram anos de guerras familiares inconclusivas e sabia que na cabeça deles estava o que o meu eu adolescente tantas vezes repetiu em voz alta para que todos ouvissem: Um dia mato-te.
Estou fechada no meu armário. Para me safar, tenho de fugir. Contudo, sei que para onde quer que eu vá irei sempre carregar o peso dos abusos. Tê-lo matado não me pesa a consciência, muito pelo contrário, libertou-a!
A segunda bala não foi um acaso. Eu sabia que ia terminar assim. Ergui a arma até à minha têmpora. Apertei o gatilho. Chegou a minha libertação, a minha fuga.
Caraças, este foi poderoso! Gostei muito, parabéns! :D
ResponderEliminarBeijinhos
Fiquei sem fôlego!
ResponderEliminarUm texto muito forte. Um autêntico guião de filme.
Beijinho
Bom texto com temas como abusos em crianças, violencia, suicídio,... que mexe comigo.
ResponderEliminarObrigada pela escrita!
Obrigada .
ResponderEliminarBeijinhos
Obrigada .
ResponderEliminarBeijinhos
Obrigada . Não é fácil ler este tipo de textos quando os temas mexem connosco, por isso ainda lhe agradeço mais o feedback.
ResponderEliminarGostei muito 🤩 Muito forte e uma realidade infeliz para muita gente.
ResponderEliminarBeijinhos
Olá, Silvana!
ResponderEliminarUau, que conto incrível! Adorei! Excelente descrição, excelente build-up emocional, excelente história que trouxeste para aqui. Muitos parabéns!
Obrigada por teres participado, esperamos ver-te neste último tema!
Um beijinho,
Elisabete.
Obrigada .
ResponderEliminarBeijinhos
Olá Elisabete!
ResponderEliminarMuito obrigada . Ler estes comentários de alguém que se dedica profissionalmente à escrita é uma sensação muito boa.
Eu é que agradeço.
Beijinhos