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Opinião | "Lá, onde o vento chora" de Delia Owens

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"Lá, onde o vento chora" foi uma das minhas últimas leituras de 2020 e acho que é a opinião que mais me vai custar escrever de todos os livros lidos no ano que acabou de terminar. Vai-me custar, porque não consegui encontrar o encanto que tanta gente conseguiu. 


A ação central do livro desenrola-se em torno de Kya, uma criança que vive sozinha num pantanal e é socialmente excluída. Esta criança, de quem acompanhamos o crescimento, protagoniza verdadeiros momentos de resiliência. Quando tudo se desmoronava à sua volta, ela conseguiu encontrar força para continuar com a sua vida e procurou explicar para si própria aquilo que vivia através daquilo que observava e conhecia da natureza, lugar onde ela se perdia em observações. 


A natureza tem uma força muito grande neste livro. É quase como que uma personagem secundária que alimenta relações, dá forma a emoções e deixa no ar sons e cheiros capazes de espicaçar a imaginação de quem lê. 
Tudo isto chega ao leitor através de uma escrita com um tom quase lírico, que embala a leitura numa cadência muito própria. Há descrições que parecem poesia e que despertam os sentidos. Se no início gostei desta abordagem, com o desenrolar do livro comecei a aborrecer-me com estas descrições. Por vezes, senti que eram demasiadas. Senti que a escritora deveria ter sido mais simples e objetiva porque algumas delas não acrescentavam nada à história. 


Eu consigo identificar duas fases distintas na narração desta história: pré e pós julgamento. Foi engraçado que me pareceu que estava a lidar com duas escritoras diferentes. Uma deles mais lírica, que exprimia as emoções com recurso a comparações e metáforas e outra mais objetiva, dinâmica e com uma boa capacidade de ilustrar cenas de audiência judicial. Pois, pareceu-me que o livro foi escrito por duas pessoas distintas. A certa altura até me senti aborrecida por esta minha implicância. O que é certo é que gostei mais da "segunda" escritora.


Eu quando implico, implico à séria (até parece que oiço o pensamento da minha vizinha Daniela a dizer que penso demais no que leio). E fui pensando e pensando, fui conhecendo melhor a Kya e analisando os seus comportamentos e, cada vez mais, fui sentindo as incongruência a saltarem umas atrás das outras. Há uma incompatibilidade muito óbvia entre a pessoa que esta miúda se torna e o mundo em que ela viveu. As coisas que acontecem são demasiado irrealistas. Sei que a ação decorre numa outra época, mas há coisas que não encaixam. Foi-me vendida uma imagem da Kya que não acompanha a forma como ela foi vivendo. 
A construção da personalidade desta jovem não reflete aquilo que ela foi obrigada a viver. A forma como ela escolhe relacionar-se com os outros é incongruente com a imagem pessoal que a escritora parece querer passar.


Desculpem-me os leitores que amaram esta história e que desenvolveram uma enorme empatia pela Kya, mas eu não sinto realismo nesta personagem, na forma como ela viveu e na pessoa em que ela se tornou. Na minha perspetiva foi demasiado idealizada, demasiado construída de forma a criar uma personagem com aquelas características. Reforço, o comportamento da rapariga não acompanha o tipo de personalidade que a escritora quis passar.


Há a parte policial que vai surgindo ali pelo meio. Uma abordagem pobre, com diálogos pouco elucidativos, demasiado fabricados e sem profundidade. É um elemento que tem a sua importância no contexto geral da história, mas foi mal aproveitado.


E, nestes altos e baixos que marcaram a minha leitura, cheguei ao final. Um final narrado de forma abrupta, onde senti que houve falta de informação. Foi confuso assimilar aquilo que foi desvendado. Foi inesperado, surpreendeu, mas não me convenceu. 


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