Avançar para o conteúdo principal

Opinião | "Lá, onde o vento chora" de Delia Owens

P_20200506_141533_HDR.jpg


"Lá, onde o vento chora" foi uma das minhas últimas leituras de 2020 e acho que é a opinião que mais me vai custar escrever de todos os livros lidos no ano que acabou de terminar. Vai-me custar, porque não consegui encontrar o encanto que tanta gente conseguiu. 


A ação central do livro desenrola-se em torno de Kya, uma criança que vive sozinha num pantanal e é socialmente excluída. Esta criança, de quem acompanhamos o crescimento, protagoniza verdadeiros momentos de resiliência. Quando tudo se desmoronava à sua volta, ela conseguiu encontrar força para continuar com a sua vida e procurou explicar para si própria aquilo que vivia através daquilo que observava e conhecia da natureza, lugar onde ela se perdia em observações. 


A natureza tem uma força muito grande neste livro. É quase como que uma personagem secundária que alimenta relações, dá forma a emoções e deixa no ar sons e cheiros capazes de espicaçar a imaginação de quem lê. 
Tudo isto chega ao leitor através de uma escrita com um tom quase lírico, que embala a leitura numa cadência muito própria. Há descrições que parecem poesia e que despertam os sentidos. Se no início gostei desta abordagem, com o desenrolar do livro comecei a aborrecer-me com estas descrições. Por vezes, senti que eram demasiadas. Senti que a escritora deveria ter sido mais simples e objetiva porque algumas delas não acrescentavam nada à história. 


Eu consigo identificar duas fases distintas na narração desta história: pré e pós julgamento. Foi engraçado que me pareceu que estava a lidar com duas escritoras diferentes. Uma deles mais lírica, que exprimia as emoções com recurso a comparações e metáforas e outra mais objetiva, dinâmica e com uma boa capacidade de ilustrar cenas de audiência judicial. Pois, pareceu-me que o livro foi escrito por duas pessoas distintas. A certa altura até me senti aborrecida por esta minha implicância. O que é certo é que gostei mais da "segunda" escritora.


Eu quando implico, implico à séria (até parece que oiço o pensamento da minha vizinha Daniela a dizer que penso demais no que leio). E fui pensando e pensando, fui conhecendo melhor a Kya e analisando os seus comportamentos e, cada vez mais, fui sentindo as incongruência a saltarem umas atrás das outras. Há uma incompatibilidade muito óbvia entre a pessoa que esta miúda se torna e o mundo em que ela viveu. As coisas que acontecem são demasiado irrealistas. Sei que a ação decorre numa outra época, mas há coisas que não encaixam. Foi-me vendida uma imagem da Kya que não acompanha a forma como ela foi vivendo. 
A construção da personalidade desta jovem não reflete aquilo que ela foi obrigada a viver. A forma como ela escolhe relacionar-se com os outros é incongruente com a imagem pessoal que a escritora parece querer passar.


Desculpem-me os leitores que amaram esta história e que desenvolveram uma enorme empatia pela Kya, mas eu não sinto realismo nesta personagem, na forma como ela viveu e na pessoa em que ela se tornou. Na minha perspetiva foi demasiado idealizada, demasiado construída de forma a criar uma personagem com aquelas características. Reforço, o comportamento da rapariga não acompanha o tipo de personalidade que a escritora quis passar.


Há a parte policial que vai surgindo ali pelo meio. Uma abordagem pobre, com diálogos pouco elucidativos, demasiado fabricados e sem profundidade. É um elemento que tem a sua importância no contexto geral da história, mas foi mal aproveitado.


E, nestes altos e baixos que marcaram a minha leitura, cheguei ao final. Um final narrado de forma abrupta, onde senti que houve falta de informação. Foi confuso assimilar aquilo que foi desvendado. Foi inesperado, surpreendeu, mas não me convenceu. 


Classificação

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Palavras Memoráveis

Quer dizer que podemos fazer isto juntos. Quer dizer que me deixas furar a carapaça. Só assim é que isto pode resultar. Tu deixas que eu te magoe e eu deixo que tu me magoes. Tess Gerritsen, A pecadora

Por detrás da tela | Love, Rosie

Classificação: 5 Estrelas Já há muito tempo que por aqui não aparecia uma opinião a um filme. A realidade é que já não via um filme há muito, muito tempo.  Há uns dias, enquanto via trailers no youtube cruzei-me com este Love, Rosie  e fiquei logo com curiosidade para o ver.  Adorei o filme. Eu tenho um carinho especial por histórias de amizade que, aos poucos, se vão solidificando em algo mais importante. E assim nasce um amor... Porém, nem sempre é fácil chegar a essa conclusão acerca dos novos sentimentos que vão aparecendo.  Rosie e Alex são os protagonistas deste filme e adorei as interpretações de ambos. Transmitem muito bem os sentimentos, têm um entendimento que contribui muito para a história em si.  O enredo acaba por ser simples, mas muito bonito.  É um filme para todos aqueles e aquelas que gostam de romance e de dramas que tendem a afastar caminhos que deviam estar a cruzar-se algures nos trilhos do destino. Só no fim do filme é que me apercebi que era uma adaptação do li...

Por detrás da tela | "Call me by your name" (2017) e After (2019)

Call me by your name Assim que terminei de ler o livro, achei que era uma boa ideia ver o filme. Foi a decisão mais acertada!  Temos um filme bastante fiel ao livro, porém há passagens no filme que eu só as compreendi na sua totalidade porque tinha lido o livro (mais especificamente a sequência de cenas com os calções do Oliver).  É um filme que cheira a verão. Que me fez querer ir uns dias para aquela casa, para aqueles pomares , só para sentir o cheiro da fruta madura e a frescura das águas. Isto resulta de um excelente trabalho na construção das cenas e numa boa captação dos cenários. A narrativa do filme acompanha a narrativa do livro, exceto a parte final. A intensidade da história de Elio e Oliver, a descoberta daquele amor, as dificuldades em geri-lo são aspetos que fazem parte da ação central do livro e que aparecem muito bem representados no filme. Eu estava com algum receio relativamente à forma como o livro seria transportado para o filme. Este receio tinha como base a minha...