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Opinião | "Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich

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Demorei a ler este livro. O confinamento e o teletrabalho deixou-me menos tempo para ler, mas a densidade emocional subjacente aos relatos que são eternizados nestas páginas exige tempo. Não se pode ler depressa, há a exigência de uma leitura mais lenta como se só assim pudéssemos respeitar as memórias dolorosos de todos aqueles que viveram Chernobyl. 


Svetlana criou o seu próprio estilo literário: dar voz às histórias de pessoas reais e eternizá-las nas páginas de um livro. E o resultado é muito positivo, porque eu me senti envolvida em cada uma dos relatos de todas aquelas pessoas. A organização das entrevistas, conferindo-lhe um fio condutor, revela um trabalho exímio e uma sensibilidade sem limite por parte da escritora. 
Raiva, tristeza, resignação, incompreensão, revolta, amor e angústia são apenas alguns dos sentimentos espelhados nestas narrativas. São vozes duras! Vozes que guardam memórias que só eles conseguem perceber. Por muito que se conte, por muito que eles partilhei as suas histórias com o mundo, é percetível que as dores são muito próprias. Este lado pessoal da dor talvez seja o resultado de só eles conhecerem muito bem as consequências que o acidente nuclear teve nas suas vidas. 


É doloroso perceber que o sofrimento de muitas pessoas é consequência de um conjunto de más decisões. É revoltante perceber que a política se sobrepôs à ciência e, com isso, o impacto do desastre nuclear foi ainda maior. O desconhecimento por parte das pessoas, a resistência de algumas delas em abandonar o seu lugar e a forma desequilibrada como tudo foi gerido são temas comuns a muitos dos monólogos. 


"Vozes de Chernobyl" é um livro para reler e respeitar a histórias que marcaram a História. O livro expõe muitas das consequências das explosão nuclear, contudo acho que há muitas que continuam no silêncio. O impacto psicológico que este desastre deixou deve ser inimaginável e penso que pouco foi feito a respeito disso. 


É impossível ler ser fazer alguns paralelismos com a os tempos atuais. Tal como a radioatividade, a Covid-19 é um inimigo invisível e duro de combater. É ler este livro e refletir sobre as consequências que estes acontecimentos têm no quotidiano das pessoas e do mundo.


Quanto à escritora, tenho a certeza que é para continuar a ler.


Classificação

Comentários

  1. Este livro deixou-me no chão! É tão intenso, tão desarmante,... nem tenho palavras.

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  2. É um livro duro de ler. Desequilibra as nossas emoções.

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