
(imagem retirada daqui)
Ele estava ali para se despedir. A dor de amar e de não a ter conseguido salvar, carregá-la-ia para todo o sempre.
A psicóloga do INEM acompanhava-o.
— Quer que entre consigo?
Ele olhou para a psicóloga. Um sorriso triste acompanhou as palavras que lhe saíram da boca:
— Obrigada! Acho que é algo que tenho de fazer sozinho.
A psicóloga assentiu, apertou-lhe o ombro em jeito de incentivo e disse-lhe:
— Claro! Espero aqui à porta.
Ele entrou na capela mortuária. Ainda cambaleava um pouco. A perna estava dorida, o braço ao peito e no corpo restavam as marcas negras da manhã de domingo. Parou ao lado do caixão, arrastou uma cadeira e sentou-se de frente para o rosto sereno dela. As lágrimas surgiram, como se elas pudessem limpar a dor das últimas horas. Deu início ao seu monólogo entrecortado pelos soluços da dor que o atingiam.
— Desculpa! Desculpa!... Tu não querias ir o rio. Acabei por insistir e olha no que deu. Já tínhamos feito aquele percurso tantas vezes… Lembras-te da primeira vez que descemos o rio? Tu rias tanto… Eu seguia na minha canoa, logo atrás de ti. Por vezes o barulho da água abafava a tua alegria, mas eu sentia-a. O sol fazia o teu cabelo castanho brilhar tanto. Quando chegamos ao fim, estavas eufórica. Prometemos fazer aquilo sempre que pudéssemos e nos apetecesse. Ontem, não te apetecia….
O choro tornou-se mais intenso. Lágrimas e ranho misturavam-se num rosto preenchido de dor. Ele foi ao bolso, retirou um lenço e limpou o rosto.
— Fiz tudo o que podia. Ainda não sei como é que a tua canoa virou e ficaste presa ali. Tentei de tudo. Até quando as forças me faltavam eu só queria libertar-te dali, arrastar-te para a margem para que depois te pudessem socorrer. Eu precisava que vivesses. Preciso de ti aqui! Viva, inteira e sempre pronta a dar-me a mão. Eu dei-te a minha, mas a força não foi suficiente. Como é que se vive com a culpa de não ter conseguido salvar a pessoa que eu mais amo nesta vida.
Permitiu-se alguns minutos de silencio para chorar.
— Sabes do que tenho medo? De esquecer a tua voz, do som do teu sorriso. Da forma especial como chamas por mim. Tenho medo de não te lembrar as vezes suficientes. Tenho medo de viver sem ti ao meu lado. Porra! Tenho medo da falta que me vais fazer. Vou-me perder nas fotografias e nos vídeos de deixaste gravados. Vou imaginar como seriam os nossos filhos e desenhá-los. Quero manter-te viva dentro de mim. Serás a minha lembrança mais bonita. Se for como tu acreditas, um dia encontrar-te-ei num campo verde e florido. Prometes que me vens esperar?
A dor aumentou e o choro tornou-se compulsivo. Ele já não conseguia dizer mais nada. Do lado de forma da capela, encostada à porta, a psicóloga chorava pela dor dele.
Isto é escrever sobre o amor e a dor.
ResponderEliminarQuase me fizeste surgir uma lágrima. Gostei muito!
ResponderEliminarO amor pela dor
ResponderEliminarPois foi... De vez em quando lá andam juntos.
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