Avançar para o conteúdo principal

Inquietação #7 | Separar o(a) escritor(a) da sua obra

Inquietação literária # 1.jpg


Quando se gosta de um livro é muito fácil criar-se uma ligação que transforma aquelas páginas numa realidade muito próxima. Um livro bem escrito é capaz de gerar todo o tipo de emoções, das mais positivas às mais negativas.


Não sei como é contigo, mas eu nunca me lembro do(a) escritor(a) enquanto me perco numa história. Para mim, história e escritor são duas identidades separadas. Não há espaço para as confundir; ou pelo menos não deixo espaço em mim para as confundir.


Há alguns escritores(as) que tenho curiosidade em conhecer, mas só porque há uma ligação, mais concretamente porque fui leitora beta. Fora esta situação, não tenho uma grande curiosidade em conhecer.


Isto é muito importante quanto estou a escrever uma opinião ao livro que leio. A minha opinião é totalmente centrada naquilo que li e naquilo que me é oferecido por aquelas páginas. O(A) escritor(a) existe enquanto pessoa que é mais do que a obra que escreveu. Merece a sua identidade, o seu anonimato se assim o preferir e não deve olhar para as opiniões como um ataque pessoal.


Sinto que muitas vezes os(as) leitores(a) têm dificuldade em separar a obra do(a) escritor(a). Quem escreve sobre história com uma forte componente racista, não significa que ele(a) seja racista. É engraçado que eu tenho sempre outra leitura. Quando leio algo fora daquilo que são os meus valores e aquilo que defendo fico irritada e penso: Que grande trabalho do(a) escritor(a), conseguiu colocar no papel um tema difícil e escreveu-o de uma forma tão boa que despertou a minha raiva.


Por vezes surgem indignações sobre como é que determinado(a) escritor(a) teve a audácia de abordar determinadas coisas e sua forma menos bonita de o fazer. Há quem inflame e escreva os seus pensamentos num tom um pouco agressivo para com a pessoa que colocou aquilo no papel.


Acima de tudo, leitores(as) e escritores(as) devem ter um comportamento empático. Respeitar o outro e o seu trabalho. Apostar numa postura assertiva e não ofensiva. Expor a opinião de uma forma clara, objetiva e fundamentada e não em forma de ataque ou desprezo. Opiniões são apenas opiniões. Não são verdades, não são leis universais… São apenas o reflexo dos nossos pensamentos e emoções e definem-nos como pessoas. Por sua vez, os livros resultam de histórias que alguém quis contar. São realidades paralelas que alguém escolheu passar para o papel. É claro que essas histórias levam um pouco de quem as escreveu, mas não são a pessoa que as escreveu. Elas não nos dão acesso à personalidade ou à essência de quem as materializou. São apenas o reflexo de um talento que é costurar palavras e construir uma história que desperte emoções no leitor.


Será assim difícil distinguir a obra da pessoa que a escreveu?

Comentários

  1. Realmente, em certas situações, não deveríamos conhecer os nossos ídolos sob pena de sofrermos alguma desilusão .
    Por exemplo, gosto muito do romance "Equador" mas não aprecio o estilo do Miguel Sousa Tavares como jornalista/comentador.
    Actualmente, através das redes sociais, é fácil chegar à fala com alguns dos nossos escritores preferidos mas também ficamos a saber factos sobre a sua vida que são desnecessários e que podem influenciar a maneira como olhamos para o que escrevem. Quem tem razão é a Elena Ferrante. Por mais que o secretismo à sua volta se possa ter tornado numa manobra publicitária, o que interessa é a sua obra e não a sua vida pessoal.

    ResponderEliminar
  2. É mesmo . Obra e autor(a) são elementos distintos e acho que poderá ser importante separar estas coisas.
    Adorei "Equador" e também não aprecio o estilo do Miguel Sousa Tavares como comentador.
    É verdade. Por isso, tento saber pouco sobre eles. Acho que assim consigo disfrutar da leitura de uma forma mais serena e menos influenciável. Ei identifico-me imenso com a postura de Elena Ferrante. Via-me a fazer exatamente o mesmo.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Palavras Memoráveis

Quer dizer que podemos fazer isto juntos. Quer dizer que me deixas furar a carapaça. Só assim é que isto pode resultar. Tu deixas que eu te magoe e eu deixo que tu me magoes. Tess Gerritsen, A pecadora

Por detrás da tela | Love, Rosie

Classificação: 5 Estrelas Já há muito tempo que por aqui não aparecia uma opinião a um filme. A realidade é que já não via um filme há muito, muito tempo.  Há uns dias, enquanto via trailers no youtube cruzei-me com este Love, Rosie  e fiquei logo com curiosidade para o ver.  Adorei o filme. Eu tenho um carinho especial por histórias de amizade que, aos poucos, se vão solidificando em algo mais importante. E assim nasce um amor... Porém, nem sempre é fácil chegar a essa conclusão acerca dos novos sentimentos que vão aparecendo.  Rosie e Alex são os protagonistas deste filme e adorei as interpretações de ambos. Transmitem muito bem os sentimentos, têm um entendimento que contribui muito para a história em si.  O enredo acaba por ser simples, mas muito bonito.  É um filme para todos aqueles e aquelas que gostam de romance e de dramas que tendem a afastar caminhos que deviam estar a cruzar-se algures nos trilhos do destino. Só no fim do filme é que me apercebi que era uma adaptação do li...

Por detrás da tela | "Call me by your name" (2017) e After (2019)

Call me by your name Assim que terminei de ler o livro, achei que era uma boa ideia ver o filme. Foi a decisão mais acertada!  Temos um filme bastante fiel ao livro, porém há passagens no filme que eu só as compreendi na sua totalidade porque tinha lido o livro (mais especificamente a sequência de cenas com os calções do Oliver).  É um filme que cheira a verão. Que me fez querer ir uns dias para aquela casa, para aqueles pomares , só para sentir o cheiro da fruta madura e a frescura das águas. Isto resulta de um excelente trabalho na construção das cenas e numa boa captação dos cenários. A narrativa do filme acompanha a narrativa do livro, exceto a parte final. A intensidade da história de Elio e Oliver, a descoberta daquele amor, as dificuldades em geri-lo são aspetos que fazem parte da ação central do livro e que aparecem muito bem representados no filme. Eu estava com algum receio relativamente à forma como o livro seria transportado para o filme. Este receio tinha como base a minha...