Avançar para o conteúdo principal

Opinião | "A mão que mata" de Lourenço Seruya

Untitled design (12).jpg


Terminada a leitura do livro "A mão que mata" tenho dificuldade em perceber o que tanto cativou os leitores, principalmente aqueles que leem muitos livros dentro deste género literário.


Começando pelos aspetos positivos e que eu acho que foram bem conseguidos:



  • A capa e o aspeto gráfico do livro. Eu não sou muito de prestar atenção ou de me importante com as capas (não sou esquisita), mas esta capa captou bem a minha atenção. É visualmente bonita e tem a capacidade de me transportar para um ambiente mais sombrio. É um elemento que acaba por orientar o leitor para a atmosfera que a história pretende transmitir. O interior do livro também revela muito cuidado e tem pormenores nas primeiras páginas de cada capítulo que são muito bonitas e sugerem cuidado no momento de criar o objeto. 

  • O título. Aos títulos já costumo prestar mais atenção. Este é daqueles que tem a capacidade de me intrigar e que me faz querer ler o livro. Na minha opinião, foi bem conseguido e tem um forte poder de atração. 


Estes foram os aspetos que me cativaram. Tudo o resto que compõem este livro trouxe-me bastante insatisfação. O livro insere-se num género literário que gosto muito e que faz parte da minha rotina de leitora. Este aspeto talvez faça de mim um leitora mais exigente e mais atenta ao que encontro na história.


O que é que não funcionou neste livro?


📌 Escrita
A narração é marcada pelo uso exagerado das vírgulas, pelas comparações onde falta a originalidade e pela predominância do contar. Realmente, senti muito a falta de que a escrita me mostrasse as coisas, me mostrasse o que se estava a passar. Dá a impressão que o livro recebeu uma revisão pouco cuidada, pois muitos destes elementos poderiam ter sido corrigidos. 
Acho que jamais me irei esquecer da expressão "Arfavam como cães (...)" (p.215). Foi uma má escolha de palavras para enquadrar uma descrição de uma cena que deveria ser caracterizada pela sensualidade. É uma expressão que tira elegância à cena e não dá o tom que deveria dar. 
Há partes demasiado contadas, quando deveriam ser mostradas. Por exemplo, nas cenas de interrogatório, quando a personagem precisa de falar sobre o que aconteceu, o autor atalha caminho e, em meia dúzia de linhas conta o que se passou. Seria muito importante mostrar! Como estava a testemunha? Qual a sua linguagem corporal? Que sinais dava enquanto descrevia a sua posição perante o acontecimento? Estes elementos perdem-se quando se opta por contar em vez de mostrar. 


📌 Diálogos
Na sequência da minha última observação surgem as limitações dos diálogos deste livro. Muitas vezes me questionei se as passagens que estava a ler tinham como real objetivo mostrar um interrogatório policial. Fez-me confusão ver investigadores e suspeitos a dissertar sobre questões sociais /pessoais (por exemplo: a decisão de uma mulher ter ou não filhos, a vida pessoal do inspetor Bruno), quando o que se devia estar a fazer era recolher informações que permitissem resolver o caso.
São diálogos desconexos, que não contribuem para o desenvolvimento da narrativa. Soam de forma artificial e parecem ter sido encaixados de uma força demasiado forçada.


📌 Personagens
Eu não consegui gostar de nenhuma das personagens. Todas elas carregam demasiados estereótipos, fazendo com que se tornassem unidimensionais aos meus olhos. Eu adoro personagens com muitas camadas, em que o desenvolvimento da narrativa me permite aceder ao interior de cada uma delas. Aqui, isso não aconteceu com nenhuma.
Os inspetores da Polícia Judiciária são machistas, pouco profissionais e ocos. Estão tão estereotipados! É a preocupação com o aspeto físico, a necessidade de impressionar as mulheres e a preguiça que os impede de usar o cérebro. O polícia experiente preguiçoso versus o jovem polícia com capacidades sensitivas que ajudam a resolver o caso. Tanta gente a fazer tão pouco e onde os chocolates que comem ganham mais destaque.
A família Ávila e todos os que a rodeavam encaixam em diferentes clichés associados a famílias de classe alta. Há adultério, há políticos, há corrupção, há depressão, há quem não tenha sorte no campo financeiro como grande parte dos familiares, há a tia irascível de quem ninguém gosta, há os jardineiros que dão cor às vidas aborrecidas das patroas chiques. 
Atenção, eu não sou contra o uso de clichés! Aborrece-me é o seu uso exagerado e a má exploração dos mesmos. 
A Susana, namorada do Bruno, é demasiado infantil e imatura. O papel dela no livro é ir preenchendo uns espaços na vida do jovem inspetor e dar algumas cenas de sexo de má qualidade ao livro. 
Ainda houve espaço para meter uma jornalista que nada acrescenta àquilo que o leitor quer saber, que é: Quem matou a tia que não gostava de ninguém. É uma cena descontextualizada, desnecessária e traz alguns momentos que me provocaram algumas paragens cerebrais. Não conseguia perceber a intencionalidade daquelas descrições e daqueles acontecimentos para o real conteúdo do livro, e o meu cérebro parava em desespero.
A criança da história também foi demasiado infantilizada. Espera-se outro tipo de comportamento de uma criança com  7/8 anos. De acordo com as descrições e comportamentos, eu diria que esta criança tem 5 anos. 


📌 Enredo (Esta parte poderá conter spoillers)
O enredo precisava de ser extremamente cativante para que pudesse camuflar todas as fragilidades até aqui apontadas. Partindo de uma premissa muito usada era necessário inovar e trazer coisas interessantes e desenvolver o conteúdo de forma a causar algum impacto.
Houve passagens que me ultrapassaram. Coisas em que se afiguravam como impossíveis aos meus olhos. Recolher amostras de ADN de alguém que está a dormir, justificando que o sono era demasiado pesado para dar conta? Lamento, mas por muito pesado que seja o nosso sono é impossível alguém enfiar-nos alguma coisa na nossa boca sem nos apercebermos. Isto foi uma tentativa irrealista de complexificar algo que seria simples para outras personagens (escova de dentes - entendedores, entenderão). 
Enfiar um abre cartas dentro de um urso de peluche sem descoser e voltar a coser? Sim, fez-me confusão. 
E depois há uma miscelânea de assuntos que não interessam nada para o cerne do livro e para a história que ele se propõe a contar. Parece que o escritor queria meter muitos assuntos ao barulho numa mesma obra e acabou por arriscar demasiado. Tudo o que se escolhe introduzir num livro deverá ser coerente e enquadrar-se na linha narrativa que se opta seguir. Colocar coisas só porque fazem parte da agenda sociocultural e sem que se relacionem com o conteúdo narrativo é oferecer ao leitor passagens desnecessárias. 


Sei que esta minha opinião é impopular. As opiniões com as quais me tenho cruzado seguem uma tendência positiva. Por vezes, quando as leio, sinto que li um livro diferente. Eu senti necessidade de expor de forma detalhada tudo aquilo que considerei não funcionar, tal como faria numa leitura beta. 


Já sabes, a caixa de comentário está aberta às tuas visões sobre o livro. Se quiseres, por favor, partilha-as. 


Classificação

Comentários

  1. Gostei de ler a tua crítica.
    Sabes quando somos fãs de um determinado género e o lemos com bastante frequência, somos cada vez mais exigentes!
    Ontem, terminei o "O enigma do mar morto", fiquei com aquela "moquinha" de uma boa leitura.
    Recomendo.

    ResponderEliminar
  2. Esta é a segunda opinião que leio sobre o livro que conheci, precisamente, quando li uma sugestão/ opinião positiva sobre o mesmo.
    Desde então está na minha lista para comprar mas, agora, lendo a tua opinião, acho que vai por lá continuar, para já

    ResponderEliminar
  3. Quando vi o lançamento deste livro, fiquei mesmo curiosa e esteve, durante algum tempo, na minha lista de desejos. Mas cruzei-me com uma ou outra opinião semelhante à tua e confesso que desisti da leitura

    ResponderEliminar
  4. Obrigada :).
    Tens toda a razão. Ler muitos livros de um determinado género dá-nos outra perspetiva.
    Sugestão anotada.
    Bom fim de semana.

    ResponderEliminar
  5. Que a minha opinião não seja motivo para desistires da leitura.

    ResponderEliminar
  6. Bem... A experiência de leitura de cada pessoa é muito particular. Pode ser que um dia o livro te passe pelas mãos e lhe decidas dar uma oportunidade.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Desafio dos Pássaros #2.1 | Acho que a coisa não vai correr bem

Tema 2.1 Acho que a coisa não vai correr bem Mal vi o tema desta primeira edição pensei O que é que eu vou escrever sobre isto? (principalmente quando ando numa fase de pouca criatividade). Os dias iam passando e as ideias não surgiam. Fui engolida pelo rebuliço da semana (rebuliço esse que começou logo no início deste mês) e como tinha uma altura mais vaga na sexta de manhã achei que seria uma boa altura para me dedicar ao tema. Ontem à noite ainda não tinha ideia do que escrever. Começaram a vir outras tarefas e claro que ideia foi, acho que a coisa não vai correr bem ao deixar o tempo avançar sem escrever nada. E, tal como aquelas profecias que se auto cumprem, eis-me aqui em frente à branca e assustadora folha do word sem saber o que vos escrever. Como vos deve parecer bem óbvio a coisa não está a correr bem e a pressão de inventar algo em tempo record levou-me a estes devaneios mentais. Quantas vezes já vos aconteceu as coisas não correm bem depois de na vossa mente formularem o ...

Por detrás da tela | (500) Dias com Summer

Ficha Técnica Actores Principais: Joseph Gordon-Levitt (Tom), Zooey Deschanel (Summer) Género: Drama / Comédia Romântica Ano: 2009 Classificação 1/5 Estrelas Opinião Este filme traz-nos a história de amor, vivida em 500 dias, entre Tom e Summer. Eles conhecem-se no local de trabalho, uma vez que Summer é contratada como nova assistente do chefe de Tom. Assim, ao longo do filme somos presenteados com avanços e recuos no tempo que nos vão oferecendo uma visão deste romance que, para mim, está condenado desde o início.  Pessoalmente, não senti química nem empatia entre estes dois elementos. Pareciam dois estranhos obrigados a viver um casal romântico na tela do cinema. A personalidade das personagens também não me despertou qualquer tipo de entusiasmo. Tom ficou obcecado pela Summer, obsessão esta um pouco distante e irrealista. Summer é uma personagem estranha que parece não saber o que quer. Não consegui perceber a intenção deste filme, nem o que ele pretendia transmitir. Os constantes ...

Em três razões

O aniversário do blog aproxima-se (dia 22 de Setembro), por isso achei que seria a altura ideal para lançar uma nova rubrica. Já andava a pensar nela à algum tempo. Os objectivos que fui ponderando na elaboração e construção desta nova ideia foram os seguintes: Permitir a interacção mais próxima com outros blogs; Dar a conhecer novos autores e novos livros; Permitir que esse conhecimento acerca dos livros viesse de uma forma simplificada.  De forma a tornar esta rubrica mais interessante irei colocar uma página no blog para ir apontando os livros que vão sendo apresentados e que ainda não li. Quando se tornarem em número significativo poderei fazer uma pequena votação para ver que livro irei ler em primeiro lugar (poderá ocorrer uma votação por mês, tudo depende da adesão). Como sou nacionalista decidi que este mês a rubrica Em três razões  deveria ser dedicada a autores nacionais. Por isso gostaria que, clicando aqui, preenchessem o pequeno questionário e indicassem três razões para ...