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Opinião | "Um mulher em fuga" de Lesley Pearse

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Lesley Pearse é uma escritora que segue uma fórmula na construção das suas histórias: uma personagem feminina que sofre, vive uma quantidade considerável de dramas, ultrapassa obstáculos e encontra o seu lugar no mundo. Porém, esta linha narrativa é, geralmente, acompanhada por boas contextualizações históricas e questões morais que levam o leitor a questionar-se e a refletir sobre as situações.
Os saquinhos brilhantes que acompanham os livros oferecem-lhe uma falsa identidade e não acompanha o conteúdo que preenche as suas páginas.


Neste livro, é contada a história de Rosie, uma criança que vive num meio masculino onde a violência. É uma criança que cresce com algum amor parental e com a tirania dos irmão mais velhos. A coragem dela oferecer-lhe-á um novo caminho, mas não isento de desafios. É um caminho novo, que acabará por lhe permitir um futuro diferente.


Temas como a violência doméstica, a violação, a perda, o perdão e a saúde mental figuram ao longo destas páginas. Cada um deles vai assumindo protagonismo, mas há momentos em que eles se cruzam de uma forma dolorosa. Todos eles carregam reflexões importantes e que me permitiram diferentes reflexões, nomeadamente:


A importância da evolução nos cuidados na saúde mental
A saúde mental é a minha área profissional. Tenho consciência que ainda há muito trabalho que carece ser feito. Há, ainda, muitos tabus e preconceitos que precisam de ser quebrados e ultrapassados. No entanto, comparando a atualidade com a realidade retratada neste livro fez-me sentir grata à ciência e à evolução que ela permitiu. O tempo que Rosie passa no hospício trouxe-me das cenas mais duras de ler. O desrespeito pela doença mental, a falta de profissionalismo, os tratamentos horrendos que faziam parte do quotidiano desta instituição fez-me pensar no poder da ciência para a evolução nos cuidados de saúde e o impacto que tudo isto tem na saúde da comunidade. 


É importante separar os filhos daquilo que são os erros dos pais
Rosie sofreu devido às suas origens. A sua família de origem ofereceu-lhe uma história de vida que a revestia de preconceito. Nem sempre é explicito este julgamento, mas ele existe e acabou por condicionar o comportamento Rosie  em alguns momentos. 


Cabe-nos a nós quebrar ciclos de violência e de más relações
Talvez fosse mais fácil para a Rosie sucumbir aos caminhos marginais que lhe eram familiares e ceder à podridão humana. Contudo, ela escolheu ser diferente e quebrar o padrão familiar que conhecia.
Nem sempre é fácil e linear quebrar com estes ciclos. Infelizmente não basta a vontade de fazer diferente. É essencial que as circunstâncias à nossa volta se ajustem à nossa vontade para que a mudança acontece. 
Neste sentido, Rosie teve essa possibilidade e soube usá-la para quebrar com uma realidade dura. 


Uma relação amorosa deve ter reciprocidade
Rosie, quando vive o seu primeiro amor, dá tudo de si. Entrega à pessoa que a conquistou todo o seu amor e dedicação. Fica sensibilizada pelas declarações de amor, pela atenção e pelo afeto que sempre foram tão escassos na sua vida. Isto faz com que ela vá ignorando alguns sinais de alerta. Um comportamento de posse que faz com que ela se vá anulando. Ela olhava para a falta de reciprocidade como uma manifestação do amor. Chega a lucidez e ela consegue perceber que tipo de comportamentos devem acompanhar as palavras de amor. 


Estamos na presença de um livro muito rico em termos emocionais e históricos. Houve alguns momentos em que senti que a narrativa carece de alguma objetividade e de um maior desenvolvimento. Arrasta-se e parece atrasar a leitura. Contudo, é um livro bem escrito e que respeita a identidade literária de Lesley Pearse.


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